O CFO da JPMorgan lança o alerta: Stablecoins com rendimento podem desencadear riscos sistémicos para o sistema financeiro

Markets
Atualizado: 2026-01-14 06:28

"(Stablecoins com rendimento) são claramente perigosos e desaconselháveis", afirmou Jeremy Barnum, Diretor Financeiro da JPMorgan Chase, durante a apresentação de resultados do quarto trimestre da empresa, a 14 de janeiro.

Barnum alertou que os stablecoins com características de remuneração estão a criar um "sistema bancário paralelo" que possui todas as características de um banco, mas opera fora do enquadramento regulatório prudencial, com séculos de existência, que rege a banca tradicional.

Este alerta surge numa altura em que os legisladores estão a rever o Digital Asset Market Structure Clarity Act, um projeto de lei que proíbe explicitamente os prestadores de serviços de pagar juros apenas por os utilizadores manterem stablecoins.

01 Alerta Regulatório

A apresentação de resultados da JPMorgan tornou-se inesperadamente um ponto central do debate sobre regulação das criptomoedas. Em resposta às questões dos analistas, Barnum focou-se diretamente nos stablecoins com rendimento.

O Diretor Financeiro do gigante de Wall Street deixou claro que a posição da JPMorgan está alinhada com o espírito regulatório do GENIUS Act, que procura estabelecer limites e salvaguardas claras para a emissão de stablecoins.

O argumento central de Barnum é que, se um produto financeiro oferece funcionalidades semelhantes a um "depósito remunerado" bancário, mas não cumpre os requisitos de capital, controlo de risco ou obrigações de conformidade correspondentes, representa um risco sistémico.

Sublinhou que esta posição não visa contrariar a concorrência ou a inovação tecnológica, mas sim rejeitar firmemente a criação de uma "estrutura bancária sombra" fora das proteções regulatórias existentes.

02 Manobras Legislativas

Enquanto a JPMorgan emitia o seu alerta, o Congresso dos EUA analisava alterações cruciais ao projeto de lei Digital Asset Market Structure Clarity Act.

O texto revisto proíbe explicitamente os prestadores de serviços de ativos digitais de pagar juros ou rendimentos aos utilizadores "apenas por manterem stablecoins". Esta disposição visa impedir que os stablecoins funcionem como depósitos bancários e escapem ao enquadramento regulatório tradicional da banca.

Importa referir que o projeto não proíbe totalmente todos os mecanismos de incentivo. Permite recompensas associadas à provisão de liquidez, participação em governação e staking—atividades que contribuem para o ecossistema.

Esta abordagem diferenciada reflete a intenção dos legisladores: incentivar a participação ativa que apoia a saúde das redes blockchain, ao mesmo tempo que limita comportamentos de procura de rendimento puramente passiva.

03 Resistência do Setor Bancário

As preocupações da JPMorgan não são isoladas. O setor bancário norte-americano formou uma frente unida, expressando grande inquietação quanto ao potencial impacto disruptivo dos stablecoins com rendimento nos seus modelos de negócio.

Oito das principais associações do setor—including a Credit Union National Association e o Defense Credit Union Council—enviaram recentemente uma carta conjunta ao Senado dos EUA, alertando que os incentivos de rendimento dos stablecoins podem desviar biliões de dólares em depósitos das instituições reguladas.

Estas organizações salientaram que os bancos comunitários e as cooperativas de crédito dependem dos depósitos para financiar empréstimos à habitação, a pequenas empresas e ao setor agrícola. A saída de depósitos levaria diretamente a uma contração do crédito local, afetando o desenvolvimento económico das comunidades.

"Não se trata de um debate político abstrato—afeta os interesses reais dos consumidores", advertiu Jason Stverak, Diretor de Defesa do Defense Credit Union Council.

04 Panorama dos Stablecoins

Porque é que os stablecoins com rendimento suscitam tanta controvérsia? Para responder, é fundamental compreender o atual panorama do mercado de stablecoins.

Segundo as classificações do setor, os stablecoins dividem-se em quatro grandes categorias: stablecoins tradicionais liderados pela Tether (USDT) e Circle (USDC); stablecoins de ecossistema apoiados por bolsas e gigantes tecnológicos; stablecoins descentralizados colateralizados por ativos cripto; e os controversos stablecoins com rendimento.

Os stablecoins com rendimento (como o USDe da Ethena Labs e o USDY da Ondo Finance) distribuem rendimentos provenientes de ativos subjacentes—tipicamente obrigações do Tesouro dos EUA—aos detentores, replicando a função remuneratória das contas poupança bancárias tradicionais.

Em comparação com as taxas de poupança típicas dos bancos, entre 0,5 % e 1,5 %, estes stablecoins oferecem rendimentos anuais de 4 % a 5 % em plataformas conservadoras, e até 3 % a 8 % em protocolos consolidados como Aave e Compound.

05 Perspetiva Global

Os EUA não estão sozinhos na atenção dedicada à regulação dos stablecoins. As principais economias mundiais aceleram as suas próprias estratégias para estes ativos.

A fintech japonesa JPYC lançou, em outubro de 2025, o primeiro stablecoin regulado indexado ao iene, $JPYC, com o objetivo de atingir um volume de emissão de 10 biliões de ienes em três anos.

Entretanto, o stablecoin XSGD de Singapura já é utilizado em cenários de pagamento reais, e a super app do Sudeste Asiático Grab planeia integrar a liquidação via stablecoin na sua rede de pagamentos.

Estes desenvolvimentos globais evidenciam a crescente importância dos stablecoins como nova infraestrutura financeira, explicando a atenção dos reguladores e das instituições financeiras tradicionais à sua evolução.

Um relatório da Citi prevê que, até 2030, a emissão global de stablecoins poderá atingir entre 1,9 biliões e 4 biliões de dólares.

06 Riscos e Oportunidades

Apesar dos alertas, Barnum reconheceu que a JPMorgan já oferece alguns produtos e serviços cripto. Colocou uma questão crucial: "No final, é preciso perguntar—como é que isto melhora realmente a experiência do consumidor?"

Do ponto de vista técnico, a DeFi moderna tornou as estratégias de rendimento com stablecoins mais inteligentes e acessíveis. Avanços como a distribuição automática de rendimentos, o acesso à liquidez multichain e a integração de ativos do mundo real proporcionam aos investidores flexibilidade e eficiência incomparáveis com a finança tradicional.

Contudo, estas inovações também acarretam riscos. Vulnerabilidades em contratos inteligentes, má gestão de liquidez e controlos de risco insuficientes podem resultar em perdas para os utilizadores.

Ao contrário dos depósitos bancários tradicionais, as posições em stablecoins não são protegidas pelo seguro da Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC), nem contam com um banco central como prestador de último recurso.

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