A S&P Global, uma das principais agências internacionais de notação financeira, desceu recentemente a classificação do stablecoin Tether (USDT) de "Restrito (4)" para "Fraco (5)", o nível mais baixo do seu sistema de avaliação.
No seu relatório, a S&P apontou como principal motivo para o downgrade o aumento da proporção de ativos de alto risco — como Bitcoin, ouro e obrigações corporativas — na carteira de reservas da Tether, bem como uma persistente "lacuna na divulgação de informação".
Paolo Ardoino, CEO da Tether, respondeu: "Temos orgulho em não ser do vosso agrado." Criticou diretamente a S&P por recorrer a "um enquadramento tradicional que não capta a natureza, escala e relevância macroeconómica das moedas nativamente digitais".
01 Downgrade da S&P: Ativos de Alto Risco e Falta de Transparência
Na quarta-feira, a S&P Global publicou um relatório de notação em que desce oficialmente a classificação do stablecoin Tether para "5 (Fraco)", a nota mais baixa do seu quadro de avaliação.
Esta decisão evidencia publicamente o fosso entre as agências tradicionais de rating financeiro e os principais intervenientes da indústria cripto.
Desde o lançamento do seu sistema de avaliação de stablecoins de 1 a 5, em 2023, a S&P nunca tinha adotado uma posição tão rigorosa em relação a um líder do setor.
O downgrade centra-se nas alterações à estrutura dos ativos de reserva da Tether. O relatório da S&P destaca que, ao longo do último ano, a Tether aumentou significativamente a quota de Bitcoin, ouro, empréstimos garantidos, obrigações corporativas e outros investimentos nas suas reservas.
A S&P classifica estes instrumentos como "ativos de alto risco", devido à sua exposição a "risco de crédito, risco de mercado, risco de taxa de juro e risco cambial".
Mais importante ainda, a S&P sublinha que a Tether disponibiliza uma divulgação muito limitada relativamente a estes ativos de alto risco, dificultando a avaliação, por parte dos investidores, da real exposição ao risco da empresa.
02 Resposta da Tether: Crítica aos Modelos Financeiros Tradicionais
A reação da Tether à notação foi especialmente contundente. Em comunicado enviado por email, o porta-voz da empresa criticou diretamente a S&P por se apoiar "num enquadramento tradicional que não capta a natureza, escala e relevância macroeconómica das moedas nativamente digitais".
Acusaram ainda a S&P de ignorar "dados claros que demonstram a resiliência, transparência e utilidade global do USDT".
Ardoino considera que a abordagem crítica da S&P faz parte de uma resistência mais ampla das finanças tradicionais face a empresas que operam fora do que designa por sistema "quebrado".
"Quando qualquer empresa tenta desafiar a gravidade de um sistema financeiro quebrado, a máquina de relações públicas das finanças tradicionais começa a ficar nervosa", escreveu Ardoino.
Defende que a Tether é fundamentalmente diferente, afirmando tratar-se da "primeira empresa sobrecapitalizada do setor financeiro" e salientando que as suas reservas não contêm ativos "tóxicos".
Ardoino defendeu ainda David Sacks numa publicação nas redes sociais, classificando os ataques contra ele como "infundados".
Referiu que os grupos que visam Sacks são os mesmos que já atacaram Elon Musk e a Tether, reforçando assim a sua visão crítica do sistema financeiro tradicional.
03 Análise dos Ativos de Reserva: Lógica Estratégica e Riscos das Alocações de Alto Risco
A aposta da Tether em ativos de maior risco não é acidental — trata-se de uma estratégia deliberada em resposta ao atual contexto macroeconómico.
Com a Reserva Federal a manter taxas de juro elevadas, as remunerações dos ativos considerados seguros, como as obrigações do Tesouro dos EUA, aumentaram de forma acentuada, o que deveria beneficiar a rentabilidade dos emissores de stablecoins.
No entanto, a Tether optou por uma abordagem distinta, aumentando gradualmente a alocação a Bitcoin e outros investimentos alternativos nas suas reservas.
Esta estratégia poderá ser motivada pela necessidade de maximizar o retorno — com a circulação do USDT a superar os 180 mil milhões , mesmo pequenos acréscimos na rendibilidade podem traduzir-se em lucros absolutos significativos.
Uma análise mais detalhada revela que as participações em Bitcoin da Tether são particularmente relevantes. Segundo o relatório trimestral de atestação da Tether, no primeiro trimestre de 2025, as suas reservas de Bitcoin ultrapassaram os 5 mil milhões .
Este valor representa mais de cinco vezes o montante inferior a 1 mil milhão registado há dois anos.
Embora esta alocação tenha gerado ganhos significativos durante o bull market do Bitcoin nos últimos dois anos, também introduz riscos que contrariam a filosofia tradicional do design dos stablecoins.
Arthur Hayes, cofundador da BitMEX, alertou que, caso o valor das reservas de Bitcoin e ouro da Tether caísse 30%, a empresa poderia enfrentar risco de insolvência.
04 Impacto no Mercado e Reações: Fluxos de Capital e Mudança no Panorama Competitivo
O downgrade da S&P teve impacto imediato no mercado de USDT, avaliado em 184 mil milhões .
Apesar de o preço do USDT se manter firmemente indexado a 1 , os dados on-chain mostram que, nas 24 horas seguintes ao anúncio, se registou uma alteração significativa nos fluxos entre o par USDT/USDC nas bolsas centralizadas.
Cerca de 350 milhões passaram de USDT para USDC. Embora este movimento de capitais não tenha provocado vendas em pânico, indica que investidores institucionais e traders mais cautelosos estão a reavaliar os riscos relativos dos dois principais stablecoins.
No contexto mais amplo do mercado de stablecoins, o downgrade da S&P pode acelerar a fragmentação do setor.
O USDT manteve durante muito tempo a sua posição dominante graças à vantagem de pioneirismo, ampla listagem em bolsas e elevada liquidez, mas estas forças estão agora a ser desafiadas.
Por um lado, jurisdições regulatórias como a União Europeia, o Reino Unido e Singapura estão a exigir que os emissores de stablecoins cumpram requisitos mais rigorosos de divulgação e reservas.
Por outro, os investidores institucionais recorrem cada vez mais a modelos tradicionais de avaliação de risco na alocação de stablecoins, sendo as notações da S&P uma referência relevante.
05 Batalha pela Transparência: O Histórico de Controvérsias da Tether e o Estado Atual
A luta da Tether com os requisitos de transparência já dura há vários anos, e o downgrade da S&P é apenas mais um capítulo.
Recordando o passado, as preocupações quanto à verificação das reservas da Tether surgiram já em 2017, quando a empresa afirmava que cada USDT estava totalmente colateralizado por um dólar norte-americano, mas não apresentava provas de auditoria.
Em 2019, o gabinete do Procurador-Geral de Nova Iorque abriu uma investigação à Tether e à sua afiliada Bitfinex, culminando num acordo de 18,5 milhões .
O acordo obrigou à divulgação regular da composição das reservas. Este episódio marcou um ponto de viragem na transparência da Tether, levando a empresa a publicar relatórios trimestrais de atestação a partir de 2021.
Contudo, a avaliação mais recente da S&P demonstra que as melhorias da Tether continuam aquém das expectativas do mercado financeiro tradicional.
A S&P assinala especificamente que "a Tether continua a fornecer informação limitada sobre a qualidade de crédito dos seus depositários, contrapartes ou prestadores de contas bancárias".
Esta crítica vai ao cerne da questão — nas finanças tradicionais, os investidores preocupam-se não só com a qualidade dos ativos, mas também com quem os detém, sob que jurisdição e com que garantias regulatórias.
06 Perspetiva Regulamentar: Aceleração dos Padrões Globais para Stablecoins
O downgrade da S&P à Tether surge num momento em que os enquadramentos regulatórios globais para stablecoins estão a consolidar-se rapidamente.
O regulamento dos Mercados de Criptoativos (MiCA) da União Europeia entrou em vigor em junho de 2024, impondo requisitos rigorosos aos emissores de stablecoins quanto a ativos de reserva, gestão de liquidez e divulgação de informação.
Nos Estados Unidos, apesar de ainda não existir legislação federal abrangente sobre criptoativos, o Comité dos Serviços Financeiros da Câmara dos Representantes está a avançar com o Payment Stablecoin Act, prevendo-se uma votação em 2025.
Estas evoluções regulamentares evidenciam uma tendência clara: os stablecoins serão alvo de escrutínio regulatório semelhante ao dos bancos.
Em particular, a transparência dos ativos de reserva será um foco central. Ao abrigo do MiCA, os emissores de stablecoins terão de publicar relatórios mensais de auditoria das reservas, realizados por sociedades de auditoria reconhecidas na UE.
Estes relatórios devem detalhar os tipos de ativos, qualidade de crédito, estrutura de maturidades e condições de custódia.
Para a Tether, o cumprimento regulamentar representa desafios significativos. Sendo uma empresa registada em El Salvador, a Tether já enfrenta acesso limitado ao mercado europeu.
Com a entrada em vigor do MiCA, as suas operações nos Estados Unidos e na Europa enfrentarão obstáculos legais de grande dimensão.
Perspetivas
O mercado de stablecoins está em transformação. Os dados mostram que, após o downgrade da S&P ao USDT, cerca de 350 milhões migraram do USDT para o seu concorrente USDC. Embora este movimento não tenha provocado pânico generalizado, é um sinal de que o mercado está a reavaliar os riscos relativos destes dois grandes stablecoins.
A Gate Exchange, enquanto plataforma global de referência para negociação de criptomoedas, disponibiliza aos utilizadores uma vasta gama de opções de trading de stablecoins. Em períodos de volatilidade de mercado, a diversificação da alocação de ativos é mais importante do que nunca.
Independentemente da avaliação do mercado em relação à Tether, os investidores podem gerir facilmente os seus ativos de stablecoins através da Gate Exchange.


