Na sua essência filosófica, o libertarianismo baseia-se numa premissa aparentemente simples, mas profundamente desafiadora: os indivíduos devem ser livres para fazer escolhas sobre as suas próprias vidas, propriedades e corpos, sem interferência coerciva de terceiros. Mas o que exatamente defende um pensador libertário? Mais importante ainda, por que é que esta filosofia influenciou tudo, desde a economia clássica até à criação do Bitcoin? A resposta reside na compreensão de como uma visão libertária do mundo remodela a relação entre indivíduos, sociedade e o próprio governo.
A Arquitetura Filosófica: Onde Começaram as Ideias Libertárias
As bases intelectuais do libertarianismo não foram construídas de um dia para o outro. Antes, foram edificadas ao longo de séculos de debate filosófico, refinado por pensadores que enfrentaram questões fundamentais: Que direitos possuem os indivíduos por natureza? Como deve ser organizada a sociedade? Qual é o papel adequado do governo?
A Contribuição Revolucionária de John Locke
No século XVII, John Locke alterou fundamentalmente a filosofia política ao argumentar que os indivíduos possuem direitos inerentes e naturais à vida, liberdade e propriedade—direitos que precedem qualquer governo e não podem ser legítima ou permanentemente retirados. Em vez de ver os direitos como concedidos pelo Estado, Locke posicionou-os como dignidades humanas fundamentais. Essa distinção foi revolucionária. Locke sustentou que os governos existem através de um contrato social—um acordo entre indivíduos para formar instituições que protejam esses direitos preexistentes, não para criá-los. Essa ideia tornou-se a estrutura intelectual sobre a qual a filosofia libertária eventualmente se apoiaria.
A Herança Americana
Thomas Jefferson incorporou a filosofia de Locke na Declaração de Independência, imortalizando a noção de que “todos os homens são criados iguais” com direitos “inalienáveis”, incluindo a vida, a liberdade e a “busca da felicidade”. Ao substituir a busca pela felicidade pela propriedade no quadro de Locke, Jefferson adaptou o conceito a um contexto revolucionário. Contudo, a lógica subjacente permaneceu: os indivíduos possuem direitos que os governos devem proteger, não restringir.
Dos Mercados às Mentes: A Expansão Iluminista
A Ilustração trouxe novos pensadores à conversa. Adam Smith, apoiando-se nos princípios económicos libertários, demonstrou em “A Riqueza das Nações” que indivíduos a perseguirem o seu interesse próprio em mercados competitivos geram prosperidade para a sociedade como um todo. As ideias de Smith sugeriam que a liberdade não era apenas uma obrigação moral—era economicamente superior. Por outro lado, Jean-Jacques Rousseau, com a sua teoria do contrato social, enfatizando o consentimento e o poder limitado do governo, minou ainda mais as justificações para a monarquia absoluta e o controlo centralizado.
Até ao século XX, Friedrich Hayek emergiu como a voz mais influente do libertarianismo moderno. Hayek argumentou de forma contundente que o planeamento central—o controlo coordenado da atividade económica por parte do governo—inevitavelmente conduz à tirania. Em “O Caminho da Servidão”, alertou que intervenções governamentais bem-intencionadas nos mercados criam dependências que gradualmente corroem as liberdades individuais. A análise económica de Hayek forneceu rigor empírico ao ceticismo libertário em relação ao poder estatal.
O Sistema Operativo: Princípios Centrais do Libertarianismo Explicados
Compreender o que os libertários acreditam exige captar vários princípios interligados que funcionam como um sistema operativo para a sua visão da sociedade.
Liberdade Individual e Soberania Pessoal
No centro está a liberdade individual—a convicção de que cada pessoa possui o direito inerente de tomar decisões autónomas sobre a sua própria existência. Isto significa liberdade de expressão sem censura, liberdade de associação sem coerção, e liberdade de conduzir a sua vida pessoal de acordo com os seus valores. Uma perspetiva libertária celebra a ideia de que os indivíduos são responsáveis pelas suas próprias escolhas e devem suportar as consequências. Isto difere fundamentalmente de abordagens paternalistas onde o governo assume que sabe melhor como as pessoas devem viver.
O Princípio da Não-Agressão: O Núcleo Ético do Libertarianismo
O princípio da não-agressão (NAP) funciona como a base ética do libertarianismo. Simplificando: a iniciação de força contra outros é antiética e ilegítima. Embora os indivíduos mantenham o direito de se defenderem contra agressões, não têm direito de iniciar violência. Este princípio elimina justificações para políticas governamentais coercivas que sobrepõem a escolha individual “para o seu próprio bem”. Quando os governos taxam rendimentos, regulam negócios ou criminalizam comportamentos, os libertários veem estas ações como violações do NAP quando impostas sem consentimento.
Direitos de Propriedade: Liberdade Materializada
Os libertários tratam os direitos de propriedade não apenas como conveniências legais, mas como extensões da liberdade pessoal. Quando os indivíduos podem adquirir, controlar e dispor de propriedade por meios voluntários, ganham uma liberdade prática. Os direitos de propriedade criam incentivos à produtividade e inovação. Permitem que os indivíduos acumulem riqueza e autonomia. Os direitos de propriedade intelectual—sejam eles a proteção de invenções, obras artísticas ou inovações—também incentivam a criatividade, permitindo aos criadores beneficiar do seu trabalho.
Para os libertários, os problemas com os direitos de propriedade surgem quando o Estado os falha em proteger (permitindo roubo e fraude) ou viola através de apreensões e regulações. De qualquer modo, a erosão dos direitos de propriedade traduz-se na erosão da liberdade.
Governo Limitado: Não Anarquismo, Mas Restrição
Os libertários não rejeitam necessariamente o governo por completo, embora alguns o façam. Antes, a maioria defende um governo radicalmente limitado—instituições restritas às funções essenciais, como a proteção dos direitos individuais, a execução de contratos e a defesa contra ameaças externas. Esta abordagem, chamada minarquismo, distingue-se do anarquismo ao reconhecer que algumas instituições coordenadas podem ter papéis legítimos. Contudo, esses papéis permanecem estritamente limitados.
Mercados Livres: Troca Voluntária em Detrimento da Coerção
Os libertários defendem os mercados livres não apenas como alocadores eficientes de recursos (embora o sejam), mas como mecanismos de cooperação voluntária. Os mercados permitem que bilhões de indivíduos coordenem atividades produtivas sem planeamento central ou coerção. Quando os participantes de uma transação concordam voluntariamente, ambos beneficiam—caso contrário, não concordariam. Isto opõe-se às imposições governamentais independentemente da preferência individual.
Fragmentação Filosófica: O Espectro Libertário
O pensamento libertário nunca foi monolítico. Diferentes pensadores enfatizam princípios distintos, levando a conclusões divergentes sobre a organização adequada da sociedade.
Minarquistas e o Estado Necessário
Os minarquistas aceitam uma estrutura estatal minimalista responsável por tribunais, aplicação da lei e defesa nacional. Argumentam que estas funções criam bens públicos genuínos que os mercados têm dificuldade em fornecer. Contudo, opõem-se firmemente à intervenção governamental na saúde, educação, regulação económica ou bem-estar social—domínios onde alternativas voluntárias funcionam de forma mais eficaz e respeitam a liberdade individual.
Anarcocapitalistas: Levando a Liberdade ao Extremo Lógico
Os anarcocapitalistas defendem que a aplicação consistente dos princípios libertários conduz ao anarquismo: sociedades sem Estado organizadas inteiramente através de cooperação voluntária, direitos de propriedade privada e mecanismos de mercado. Argumentam que segurança, justiça e até mesmo a lei podem ser providenciadas por mercados competitivos e arranjos de seguros. Os anarcocapitalistas veem o Estado como inerentemente coercivo e fundamentalmente incompatível com a verdadeira liberdade.
Libertários de Esquerda: Sintetizando Liberdade com Igualdade
Os libertários de esquerda combinam a ênfase libertária na liberdade individual com preocupações sobre injustiças históricas e desigualdade de oportunidades. Embora mantenham o compromisso com mercados livres e um governo limitado, defendem que a propriedade de recursos naturais deve ser democratizada e que injustiças passadas criam reivindicações legítimas de redistribuição corretiva. Esta escola tenta preservar a oposição libertária ao Estado coercivo, ao mesmo tempo que aborda preocupações de equidade social.
Desafios Contemporâneos: Quando a Realidade Testa a Teoria
O libertarianismo enfrenta críticas sérias de várias perspetivas políticas, especialmente no que diz respeito às falhas de mercado e ao bem-estar social.
Os críticos argumentam que mercados não regulados produzem externalidades negativas (poluição, condições de trabalho perigosas), comportamentos monopolistas e assimetrias de informação que deixam populações vulneráveis desprotegidas. Os opositores estatistas defendem que alguma regulação governamental é essencial para segurança, proteção ambiental e estabilidade económica.
Os libertários contrapõem que muitas supostas falhas de mercado resultam na verdade de políticas coercivas do governo que criam escassez artificial ou removem responsabilidades por danos. O presidente argentino Javier Milei—um economista libertário autodefinido—articulou esta posição de forma convincente: falhas de mercado verdadeiras não podem ocorrer quando as transações permanecem voluntárias. Só quando a coerção governamental entra em cena é que surge uma falha de mercado genuína.
Quanto às políticas sociais, as posições libertárias sobre legalização de drogas, liberdade reprodutiva e mínimos serviços sociais geraram debates sobre possíveis consequências negativas. Os críticos receiam que políticas libertárias possam aumentar as taxas de dependência ou deixar populações vulneráveis sem apoios adequados.
A Manifestação Tecnológica: Os Ideais Libertários Encontram a Criptografia
A emergência do Bitcoin em 2009 representa talvez a expressão mais significativa do libertarianismo na prática contemporânea. O Bitcoin não surgiu ao acaso—cristalizou-se na interseção do pensamento económico libertário com a inovação tecnológica do movimento cypherpunk.
Friedrich Hayek afirmou profeticamente: “Acredito que nunca teremos uma boa moeda novamente antes de tirarmos a coisa das mãos do governo, ou seja, não podemos tirá-las violentamente, tudo o que podemos fazer é, por meios indiretos, introduzir algo que eles não possam impedir.”
Esta visão inspirou futuristas libertários como Philip Salin e impulsionou o movimento cypherpunk na criação de uma moeda autónoma. Nick Szabo, Hal Finney, Wei Dai e outros participantes na lista de emails “Libtech”—um encontro de futuristas libertários e inovadores cypherpunk—criaram as condições intelectuais de onde surgiu o Bitcoin. Estes indivíduos compreenderam que a verdadeira liberdade monetária exigia sistemas além do controlo governamental.
O Bitcoin operacionaliza os ideais libertários: descentralizado, sem permissões, resistente à censura e impossível de ser desvalorizado por expansão monetária. Encapsula o princípio de que os indivíduos devem possuir soberania sobre os seus recursos financeiros, sem necessidade de permissão de autoridades políticas.
Para além da especulação, o Bitcoin oferece caminhos práticos para a autonomia financeira de bilhões que não têm acesso a sistemas bancários estáveis. Proporciona refúgio contra a desvalorização da moeda causada por má gestão monetária. Apresenta uma alternativa real aos sistemas fiduciários controlados pelo Estado, que concentram o poder económico.
A Relevância Duradoura do Pensamento Libertário
Desde a teoria dos direitos naturais de Locke até aos avisos de Hayek sobre o planeamento central, passando pela realização tecnológica do Bitcoin, as ideias libertárias moldaram a nossa forma de pensar sobre liberdade, propriedade e o âmbito legítimo do governo. Quer se aceite ou rejeite as conclusões libertárias, compreender esta tradição filosófica é essencial para entender os debates atuais sobre regulação, privacidade, organização económica e a relação entre indivíduos e Estados.
O compromisso libertário com a liberdade individual—com a soberania pessoal, a cooperação voluntária e o poder coercivo limitado—responde a desafios humanos perenes. À medida que a tecnologia possibilita coordenação sem precedentes e vigilância sem precedentes, e os governos acumulam poderes cada vez maiores para monitorizar e controlar a atividade económica, e os sistemas centralizados se revelam cada vez mais frágeis, as questões libertárias tornam-se cada vez mais urgentes: Como preservamos a liberdade humana? Como organizamos a prosperidade? Como restringimos o poder institucional? Estas continuam a ser as questões vitais que a filosofia libertária continua a questionar.
Ver original
Esta página pode conter conteúdo de terceiros, que é fornecido apenas para fins informativos (não para representações/garantias) e não deve ser considerada como um endosso de suas opiniões pela Gate nem como aconselhamento financeiro ou profissional. Consulte a Isenção de responsabilidade para obter detalhes.
Compreender o Libertarianismo: Filosofia por trás da Liberdade Individual e dos Mercados
Na sua essência filosófica, o libertarianismo baseia-se numa premissa aparentemente simples, mas profundamente desafiadora: os indivíduos devem ser livres para fazer escolhas sobre as suas próprias vidas, propriedades e corpos, sem interferência coerciva de terceiros. Mas o que exatamente defende um pensador libertário? Mais importante ainda, por que é que esta filosofia influenciou tudo, desde a economia clássica até à criação do Bitcoin? A resposta reside na compreensão de como uma visão libertária do mundo remodela a relação entre indivíduos, sociedade e o próprio governo.
A Arquitetura Filosófica: Onde Começaram as Ideias Libertárias
As bases intelectuais do libertarianismo não foram construídas de um dia para o outro. Antes, foram edificadas ao longo de séculos de debate filosófico, refinado por pensadores que enfrentaram questões fundamentais: Que direitos possuem os indivíduos por natureza? Como deve ser organizada a sociedade? Qual é o papel adequado do governo?
A Contribuição Revolucionária de John Locke
No século XVII, John Locke alterou fundamentalmente a filosofia política ao argumentar que os indivíduos possuem direitos inerentes e naturais à vida, liberdade e propriedade—direitos que precedem qualquer governo e não podem ser legítima ou permanentemente retirados. Em vez de ver os direitos como concedidos pelo Estado, Locke posicionou-os como dignidades humanas fundamentais. Essa distinção foi revolucionária. Locke sustentou que os governos existem através de um contrato social—um acordo entre indivíduos para formar instituições que protejam esses direitos preexistentes, não para criá-los. Essa ideia tornou-se a estrutura intelectual sobre a qual a filosofia libertária eventualmente se apoiaria.
A Herança Americana
Thomas Jefferson incorporou a filosofia de Locke na Declaração de Independência, imortalizando a noção de que “todos os homens são criados iguais” com direitos “inalienáveis”, incluindo a vida, a liberdade e a “busca da felicidade”. Ao substituir a busca pela felicidade pela propriedade no quadro de Locke, Jefferson adaptou o conceito a um contexto revolucionário. Contudo, a lógica subjacente permaneceu: os indivíduos possuem direitos que os governos devem proteger, não restringir.
Dos Mercados às Mentes: A Expansão Iluminista
A Ilustração trouxe novos pensadores à conversa. Adam Smith, apoiando-se nos princípios económicos libertários, demonstrou em “A Riqueza das Nações” que indivíduos a perseguirem o seu interesse próprio em mercados competitivos geram prosperidade para a sociedade como um todo. As ideias de Smith sugeriam que a liberdade não era apenas uma obrigação moral—era economicamente superior. Por outro lado, Jean-Jacques Rousseau, com a sua teoria do contrato social, enfatizando o consentimento e o poder limitado do governo, minou ainda mais as justificações para a monarquia absoluta e o controlo centralizado.
Até ao século XX, Friedrich Hayek emergiu como a voz mais influente do libertarianismo moderno. Hayek argumentou de forma contundente que o planeamento central—o controlo coordenado da atividade económica por parte do governo—inevitavelmente conduz à tirania. Em “O Caminho da Servidão”, alertou que intervenções governamentais bem-intencionadas nos mercados criam dependências que gradualmente corroem as liberdades individuais. A análise económica de Hayek forneceu rigor empírico ao ceticismo libertário em relação ao poder estatal.
O Sistema Operativo: Princípios Centrais do Libertarianismo Explicados
Compreender o que os libertários acreditam exige captar vários princípios interligados que funcionam como um sistema operativo para a sua visão da sociedade.
Liberdade Individual e Soberania Pessoal
No centro está a liberdade individual—a convicção de que cada pessoa possui o direito inerente de tomar decisões autónomas sobre a sua própria existência. Isto significa liberdade de expressão sem censura, liberdade de associação sem coerção, e liberdade de conduzir a sua vida pessoal de acordo com os seus valores. Uma perspetiva libertária celebra a ideia de que os indivíduos são responsáveis pelas suas próprias escolhas e devem suportar as consequências. Isto difere fundamentalmente de abordagens paternalistas onde o governo assume que sabe melhor como as pessoas devem viver.
O Princípio da Não-Agressão: O Núcleo Ético do Libertarianismo
O princípio da não-agressão (NAP) funciona como a base ética do libertarianismo. Simplificando: a iniciação de força contra outros é antiética e ilegítima. Embora os indivíduos mantenham o direito de se defenderem contra agressões, não têm direito de iniciar violência. Este princípio elimina justificações para políticas governamentais coercivas que sobrepõem a escolha individual “para o seu próprio bem”. Quando os governos taxam rendimentos, regulam negócios ou criminalizam comportamentos, os libertários veem estas ações como violações do NAP quando impostas sem consentimento.
Direitos de Propriedade: Liberdade Materializada
Os libertários tratam os direitos de propriedade não apenas como conveniências legais, mas como extensões da liberdade pessoal. Quando os indivíduos podem adquirir, controlar e dispor de propriedade por meios voluntários, ganham uma liberdade prática. Os direitos de propriedade criam incentivos à produtividade e inovação. Permitem que os indivíduos acumulem riqueza e autonomia. Os direitos de propriedade intelectual—sejam eles a proteção de invenções, obras artísticas ou inovações—também incentivam a criatividade, permitindo aos criadores beneficiar do seu trabalho.
Para os libertários, os problemas com os direitos de propriedade surgem quando o Estado os falha em proteger (permitindo roubo e fraude) ou viola através de apreensões e regulações. De qualquer modo, a erosão dos direitos de propriedade traduz-se na erosão da liberdade.
Governo Limitado: Não Anarquismo, Mas Restrição
Os libertários não rejeitam necessariamente o governo por completo, embora alguns o façam. Antes, a maioria defende um governo radicalmente limitado—instituições restritas às funções essenciais, como a proteção dos direitos individuais, a execução de contratos e a defesa contra ameaças externas. Esta abordagem, chamada minarquismo, distingue-se do anarquismo ao reconhecer que algumas instituições coordenadas podem ter papéis legítimos. Contudo, esses papéis permanecem estritamente limitados.
Mercados Livres: Troca Voluntária em Detrimento da Coerção
Os libertários defendem os mercados livres não apenas como alocadores eficientes de recursos (embora o sejam), mas como mecanismos de cooperação voluntária. Os mercados permitem que bilhões de indivíduos coordenem atividades produtivas sem planeamento central ou coerção. Quando os participantes de uma transação concordam voluntariamente, ambos beneficiam—caso contrário, não concordariam. Isto opõe-se às imposições governamentais independentemente da preferência individual.
Fragmentação Filosófica: O Espectro Libertário
O pensamento libertário nunca foi monolítico. Diferentes pensadores enfatizam princípios distintos, levando a conclusões divergentes sobre a organização adequada da sociedade.
Minarquistas e o Estado Necessário
Os minarquistas aceitam uma estrutura estatal minimalista responsável por tribunais, aplicação da lei e defesa nacional. Argumentam que estas funções criam bens públicos genuínos que os mercados têm dificuldade em fornecer. Contudo, opõem-se firmemente à intervenção governamental na saúde, educação, regulação económica ou bem-estar social—domínios onde alternativas voluntárias funcionam de forma mais eficaz e respeitam a liberdade individual.
Anarcocapitalistas: Levando a Liberdade ao Extremo Lógico
Os anarcocapitalistas defendem que a aplicação consistente dos princípios libertários conduz ao anarquismo: sociedades sem Estado organizadas inteiramente através de cooperação voluntária, direitos de propriedade privada e mecanismos de mercado. Argumentam que segurança, justiça e até mesmo a lei podem ser providenciadas por mercados competitivos e arranjos de seguros. Os anarcocapitalistas veem o Estado como inerentemente coercivo e fundamentalmente incompatível com a verdadeira liberdade.
Libertários de Esquerda: Sintetizando Liberdade com Igualdade
Os libertários de esquerda combinam a ênfase libertária na liberdade individual com preocupações sobre injustiças históricas e desigualdade de oportunidades. Embora mantenham o compromisso com mercados livres e um governo limitado, defendem que a propriedade de recursos naturais deve ser democratizada e que injustiças passadas criam reivindicações legítimas de redistribuição corretiva. Esta escola tenta preservar a oposição libertária ao Estado coercivo, ao mesmo tempo que aborda preocupações de equidade social.
Desafios Contemporâneos: Quando a Realidade Testa a Teoria
O libertarianismo enfrenta críticas sérias de várias perspetivas políticas, especialmente no que diz respeito às falhas de mercado e ao bem-estar social.
Os críticos argumentam que mercados não regulados produzem externalidades negativas (poluição, condições de trabalho perigosas), comportamentos monopolistas e assimetrias de informação que deixam populações vulneráveis desprotegidas. Os opositores estatistas defendem que alguma regulação governamental é essencial para segurança, proteção ambiental e estabilidade económica.
Os libertários contrapõem que muitas supostas falhas de mercado resultam na verdade de políticas coercivas do governo que criam escassez artificial ou removem responsabilidades por danos. O presidente argentino Javier Milei—um economista libertário autodefinido—articulou esta posição de forma convincente: falhas de mercado verdadeiras não podem ocorrer quando as transações permanecem voluntárias. Só quando a coerção governamental entra em cena é que surge uma falha de mercado genuína.
Quanto às políticas sociais, as posições libertárias sobre legalização de drogas, liberdade reprodutiva e mínimos serviços sociais geraram debates sobre possíveis consequências negativas. Os críticos receiam que políticas libertárias possam aumentar as taxas de dependência ou deixar populações vulneráveis sem apoios adequados.
A Manifestação Tecnológica: Os Ideais Libertários Encontram a Criptografia
A emergência do Bitcoin em 2009 representa talvez a expressão mais significativa do libertarianismo na prática contemporânea. O Bitcoin não surgiu ao acaso—cristalizou-se na interseção do pensamento económico libertário com a inovação tecnológica do movimento cypherpunk.
Friedrich Hayek afirmou profeticamente: “Acredito que nunca teremos uma boa moeda novamente antes de tirarmos a coisa das mãos do governo, ou seja, não podemos tirá-las violentamente, tudo o que podemos fazer é, por meios indiretos, introduzir algo que eles não possam impedir.”
Esta visão inspirou futuristas libertários como Philip Salin e impulsionou o movimento cypherpunk na criação de uma moeda autónoma. Nick Szabo, Hal Finney, Wei Dai e outros participantes na lista de emails “Libtech”—um encontro de futuristas libertários e inovadores cypherpunk—criaram as condições intelectuais de onde surgiu o Bitcoin. Estes indivíduos compreenderam que a verdadeira liberdade monetária exigia sistemas além do controlo governamental.
O Bitcoin operacionaliza os ideais libertários: descentralizado, sem permissões, resistente à censura e impossível de ser desvalorizado por expansão monetária. Encapsula o princípio de que os indivíduos devem possuir soberania sobre os seus recursos financeiros, sem necessidade de permissão de autoridades políticas.
Para além da especulação, o Bitcoin oferece caminhos práticos para a autonomia financeira de bilhões que não têm acesso a sistemas bancários estáveis. Proporciona refúgio contra a desvalorização da moeda causada por má gestão monetária. Apresenta uma alternativa real aos sistemas fiduciários controlados pelo Estado, que concentram o poder económico.
A Relevância Duradoura do Pensamento Libertário
Desde a teoria dos direitos naturais de Locke até aos avisos de Hayek sobre o planeamento central, passando pela realização tecnológica do Bitcoin, as ideias libertárias moldaram a nossa forma de pensar sobre liberdade, propriedade e o âmbito legítimo do governo. Quer se aceite ou rejeite as conclusões libertárias, compreender esta tradição filosófica é essencial para entender os debates atuais sobre regulação, privacidade, organização económica e a relação entre indivíduos e Estados.
O compromisso libertário com a liberdade individual—com a soberania pessoal, a cooperação voluntária e o poder coercivo limitado—responde a desafios humanos perenes. À medida que a tecnologia possibilita coordenação sem precedentes e vigilância sem precedentes, e os governos acumulam poderes cada vez maiores para monitorizar e controlar a atividade económica, e os sistemas centralizados se revelam cada vez mais frágeis, as questões libertárias tornam-se cada vez mais urgentes: Como preservamos a liberdade humana? Como organizamos a prosperidade? Como restringimos o poder institucional? Estas continuam a ser as questões vitais que a filosofia libertária continua a questionar.