O programa de gás de cozinha gratuito do Brasil ameaçado pelo aumento dos preços de energia antes das eleições

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  • Lula lançou o programa em Novembro, com os olhos postos nas eleições de 2026

  • O número de brasileiros a receberem subsídio para gás de cozinha subsidiado triplicou

  • A guerra no Médio Oriente fez disparar os custos para os revendedores de gás de cozinha

RIO DE JANEIRO, 6 de Abril (Reuters) - A disparada dos preços da energia pode inviabilizar um popular programa brasileiro que fornece gás de cozinha gratuito a cerca de 50 milhões de pessoas, alertaram distribuidores de combustíveis, revendedores e analistas, seis meses antes de uma eleição presidencial.

O Presidente Luiz Inacio Lula da Silva lançou o programa “Gás do Povo” como a sua principal iniciativa de energia em Novembro, enquanto se preparava para procurar a reeleição em Outubro.

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A guerra entre os EUA e Israel contra o Irão aumentou acentuadamente os preços do gás de petróleo liquefeito no Brasil. ​Após um leilão conduzido pela empresa estatal de energia Petrobras, que gerou prémios de até ao dobro do seu preço de referência, Lula, enfurecido, prometeu na semana passada ​anular o concurso.

Na segunda-feira, o governo anunciou um novo subsídio de 330 milhões de reais para importações de GPL, que disse que mitigaria os efeitos da ​guerra sobre os preços. Os revendedores não comentaram imediatamente qual seria o efeito do novo subsídio.

O GPL desse leilão já ​foi entregue aos distribuidores, que repassaram o aumento do preço aos revendedores em todo o Brasil, disseram os revendedores à Reuters. Mas as regras do programa Gás do Povo ​não lhes permitem cobrar mais com base em custos mais elevados, disse Jose Luiz Rocha, chefe da associação de revendedores de gás Abragas.

“Como a margem de lucro é pequena, o revendedor acaba por perder dinheiro”, disse Rocha, acrescentando que muitos estão a ameaçar abandonar o programa, que o governo tinha previsto que custaria cerca de 5,1 mil milhões de reais (991 milhões de dólares) este ano. ​O Congresso baixou então esse valor e, na segunda-feira, o governo disse num comunicado que tinha orçamentado cerca de 4,7 mil milhões de reais (914,52 milhões de dólares) este ano.

Rocha disse ​que os revendedores de gás estão a ter discussões com o governo sobre ajustes de preços.

O Ministério das Minas e Energia do Brasil não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

Um atraso nos ​ajustes de preços é ⁠natural, disse Marcelo Colomer, especialista em energia na universidade UFRJ, do Brasil. Mas a volatilidade extrema desde o início da guerra levou os intervenientes do sector a dizerem que o governo deve rever a sua metodologia de fixação de preços, disse ele.

“O que é preciso considerar é um mecanismo extraordinário, talvez associado ao programa, para mitigar este tipo de situações”, disse Colomer.

PROBLEMAS ESTRUTURAIS

Brasília tem um histórico de subsidiar gás de cozinha para os brasileiros mais pobres, mas o governo de Lula alargou o programa, triplicando a sua cobertura ​para quase um quarto da população brasileira.

Nos ⁠recantos distantes do país, o ⁠programa depende de revendedores que em breve serão pressionados para fora, disse Rocha.

Um revendedor que se junte ao programa tem de permanecer nele durante, pelo menos, três meses e, durante o período contratual, um revendedor não pode recusar os vales do programa, ​disse Rocha.

O preço do GPL não foi o único que aumentou. O custo do transporte por camião de garrafas de GPL também ⁠disparou com os preços do diesel, disse ⁠uma fonte próxima dos distribuidores.

Um revendedor de pequena escala no estado do Paraná, a sul, disse que já não consegue cobrir os seus custos. Ele planeia deixar de aceitar os vales; disse à Reuters, sob condição de anonimato.

Um revendedor de grande escala na capital do Brasil, Brasília, disse que cerca de 10% do volume que vende está no âmbito do programa. ⁠Sem um ajuste de preço, disse que planeia boicotá-lo.

“Os beneficiários vão reclamar que estão ​à procura de gás e não conseguem descobrir onde o obter”, disse Rocha. “Então vai tornar-se um grande problema do governo. Queremos ajudar, mas tem de ser a um preço ⁠justo.”

($1 = 5.1393 reais)

Reportagem de Fabio Teixeira e Marta Nogueira, no Rio de Janeiro, reportagem adicional de Bernardo Caram, em Brasilia Edição de Brad Haynes e David Gregorio

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Fabio Teixeira é correspondente da Reuters no Rio de Janeiro, cobrindo energia. Trabalhou anteriormente para a Thomson Reuters Foundation, onde escreveu sobre tráfico humano, alterações climáticas e outras questões humanitárias.

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Marta Nogueira é correspondente no Rio de Janeiro, cobrindo os sectores do petróleo e da mineração do Brasil e o seu impacto na economia, no ambiente e na vida das pessoas. Está na Reuters desde 2014, reportando desenvolvimentos importantes em energia e recursos naturais, incluindo a política energética do Brasil, mercados de matérias-primas e desafios ambientais ligados à extracção de recursos. Antes disso, trabalhou em jornais brasileiros Valor Economico e Jornal do Brasil.

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