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Percebi que toda a narrativa do mercado mudou. Antes, quando havia uma crise, era automático que os bancos centrais ativassem a impressora de dinheiro e cortassem as taxas. Mas agora, parece que o jogo não é mais tão simples por causa do impacto da situação do Irã nos mercados de energia.
O verdadeiro problema não é apenas o pico temporário no preço do petróleo. A infraestrutura de energia em si é frágil. A interrupção do Estreito de Hormuz mostrou o quão vulneráveis são as cadeias globais de suprimentos que construímos ao longo de décadas. Se houver uma pequena interrupção, as principais economias como Índia, Japão e Coreia do Sul enfrentam escassez. Mesmo a China, com suas grandes reservas, não está segura nesse cenário.
Por isso, agora todos os países estão repensando suas estratégias energéticas. Não se baseia mais apenas na economia, mas na segurança nacional. E aqui começa o problema para nós, investidores. Quando a independência energética vira prioridade sobre eficiência, ocorre a desglobalização. Produção mais cara, maior intervenção estatal, estoques estratégicos em todos os lugares.
O especialista em energia Anas Alhajji está certo na análise dele—o antigo modelo de mercados de energia abertos e impulsionados por preços morreu. Em seu lugar, há mais controle estatal, integração vertical, subsídios para os players domésticos. É parecido com o modelo chinês, mas todos os países vão tentar copiar. O problema é que eles não têm a capacidade industrial nem a decisão centralizada da China, tornando tudo mais ineficiente e mais caro.
E aqui está o ponto crucial: esse piso de inflação será estrutural, não temporário. Se os custos de energia aumentarem permanentemente, isso afetará também a produção de alimentos, manufatura, indústria de semicondutores—tudo. A ONU já alertou para preços de alimentos mais altos globalmente. As interrupções na cadeia de suprimentos em Hormuz também impedem o transporte de hélio e enxofre, essenciais para a produção de chips.
Então, o que isso significa para os ativos? Antes, de 2008 a 2021, a inflação média (CPI) ficava abaixo de 3%. Por isso, os bancos centrais se sentiam confortáveis em injetar liquidez ilimitada, taxas próximas de zero, compras agressivas de títulos. Isso impulsionou tudo—Bitcoin de dígitos únicos a US$126 mil, ações, cripto, tudo subiu. Mas se o piso da inflação já estiver alto de verdade, os bancos centrais não conseguirão mais manter uma política ultra frouxa. O tap de liquidez não será mais aberto como antes.
Inflação mais alta, política menos acomodatícia, maior volatilidade—essa é a nova normalidade. Os bancos centrais estão presos. Não podem cortar as taxas agressivamente porque precisam controlar a inflação. Assim, o suporte de liquidez ao mercado será limitado. Isso será uma resistência para todos os ativos de múltiplos elevados—ações, títulos, cripto, tudo.
Interessante notar que a Bitmine Immersion Technologies mudou de mineração pura para se tornar uma empresa de tesouraria de Ethereum, dobrou suas ações em seis meses e já acumulou quase 5% de todo o ether. Mas mesmo assim, nesse ambiente, o jogo fica mais arriscado por causa da inflação estrutural e das restrições de política.
Concluindo: é hora de ajustar a estratégia de investimento. Não dá mais para confiar em dinheiro fácil e no apoio dos bancos centrais como antes. É preciso uma postura mais defensiva, focar no rendimento real e se preparar para uma inflação mais alta e sustentada, além de maior volatilidade. A era do dinheiro barato realmente acabou.