A tributação de criptomoedas nos Estados Unidos passa por mudanças importantes: Análise das mudanças centrais e impactos do projeto de lei PARITY

A legislação fiscal federal vigente nos Estados Unidos classifica ativos digitais como propriedade (property), o que implica que cada transação de criptomoeda — seja para comprar um café, fazer uma transferência ou trocar por outro ativo — teoricamente pode desencadear obrigações de declaração de ganhos de capital. Essa regra é compreensível em momentos de grande volatilidade de preços, mas para stablecoins atreladas ao dólar em uma proporção de 1:1, cada pagamento, mesmo sem gerar lucro real, exige cálculo tributário, criando uma carga administrativa que supera em muito a própria carga tributária.

Em resposta às demandas de longo prazo do setor, os deputados Steven Horsford (Democrata de Nevada) e Max Miller (Republicano de Ohio) publicaram em 26 de março de 2026 uma versão revisada do projeto de lei PARITY para ativos digitais, que passou por uma significativa reformulação em relação ao rascunho inicial de dezembro de 2025. Essa iniciativa bipartidária busca equilibrar a redução dos custos de conformidade tributária em pagamentos cotidianos com o fechamento de brechas fiscais, tendo seu progresso futuro impacto profundo na estrutura de tributação de ativos criptográficos nos EUA.

Quais são as principais mudanças na versão do projeto de lei PARITY?

As alterações mais notáveis concentram-se na cláusula de isenção de pequenas transações envolvendo stablecoins. O rascunho de dezembro de 2025 previa um limite de isenção de 200 dólares para transações com stablecoins reguladas, inspirado na isenção de pequenas transações no mercado de câmbio estrangeiro. Contudo, a versão de março de 2026 eliminou completamente esse limite fixo, substituindo-o por uma avaliação baseada na proporção do custo base em relação ao valor de resgate. Especificamente, o projeto determina que, ao vender stablecoins reguladas, o contribuinte só reconhecerá ganhos ou perdas se o custo base for inferior a 99% do valor de resgate.

Na prática, isso significa que: se um usuário adquirir uma stablecoin por 0,99 dólares ou mais, e posteriormente vendê-la por 1 dólar ou usá-la para pagamento, o ganho de capital (aproximadamente 0,01 dólar) não precisará ser reconhecido. Essa abordagem oferece uma isenção de impostos para a maioria das transações diárias com stablecoins, abrangendo valores muito superiores ao limite de 200 dólares. Além disso, o projeto estabelece um custo base fixo de 1 dólar para trocas de stablecoins, simplificando o cálculo tributário em cenários com múltiplas moedas.

O que a eliminação do limite de 200 dólares significa para investidores comuns?

Para o usuário comum, a mudança de um limite de 200 dólares para uma avaliação baseada em 99% do custo base representa uma ampliação substancial da isenção. O limite de 200 dólares implicava que pagamentos acima desse valor ainda precisariam de cálculo tributário, enquanto a nova regra permite que, se o valor da stablecoin permanecer dentro de 1% do valor de ancoragem (entre 0,99 e 1,01 dólares), qualquer transação — independentemente do montante — possa ser isenta de reconhecimento de ganhos ou perdas de capital.

Isso beneficia especialmente usuários que realizam pagamentos frequentes de pequenas quantias. Pagamentos de salários, assinaturas periódicas ou remessas internacionais feitos com stablecoins não estarão mais limitados por um teto de valor por transação. Para aqueles que adquiriram stablecoins a um custo inferior a 0,99 dólar, essa isenção pode não se aplicar, devendo-se então reconhecer o lucro real. De modo geral, o novo quadro aproxima o tratamento tributário de stablecoins ao de dinheiro em espécie ou moeda fiduciária, reforçando sua função de meio de pagamento em vez de ativo de investimento.

Como as regras de wash sale (venda de lavagem) alteram estratégias fiscais em criptomoedas?

Outra mudança importante do projeto é a extensão formal da regra de wash sale — que impede que investidores comprem novamente um ativo com prejuízo dentro de 30 dias após a venda — ao setor de ativos digitais. Essa regra já é aplicada a ações e títulos tradicionais, mas até então não tinha aplicação clara em criptomoedas.

Se aprovada, a regra impedirá que investidores, ao venderem ativos com prejuízo, comprem novamente o mesmo ou similar em um curto período, usando essa operação para deduzir perdas fiscais. Para investidores que utilizam estratégias de alta frequência ou aproveitam janelas fiscais de final de ano, essa mudança exigirá uma reavaliação de seus ritmos de negociação e composição de portfólios. A inclusão de cláusulas semelhantes na proposta de lei de impostos de criptomoedas da senadora Cynthia Lummis no ano passado indica que há um consenso bipartidário em ampliar o alcance dessa regra.

Como a diferenciação entre staking passivo e negociação ativa afeta a tributação?

A tributação de recompensas de staking foi claramente diferenciada no projeto PARITY. A lei separa o “staking passivo” — ou seja, atividades em que o usuário não realiza negociações ativas, apenas valida transações na rede — da negociação ativa. Os contribuintes poderão optar por reconhecer os rendimentos de staking no momento do recebimento ou adiar esse reconhecimento por até cinco anos.

Esse mecanismo de postergação oferece maior flexibilidade na gestão tributária de investidores de staking de longo prazo, permitindo postergar o pagamento de impostos até um momento mais favorável. Além disso, o projeto exclui operações de empréstimo e garantia de ativos do evento tributável, alinhando-se às regras atuais de empréstimo de títulos. Contudo, organizações do setor, como o Instituto de Políticas de Bitcoin, apontam que essa postergação pode ser mais aplicável a validadores de redes PoS, enquanto mineradores de Bitcoin, considerados “participantes ativos”, podem não se beneficiar da mesma isenção, criando uma diferenciação tributária entre PoW e PoS.

Por que as stablecoins são o principal beneficiário das vantagens fiscais do projeto?

A preferência do projeto por benefícios fiscais às stablecoins gerou debates amplos na indústria. A cláusula de isenção para stablecoins no projeto PARITY baseia-se na estrutura regulatória do projeto GENIUS, que exige que as stablecoins qualificadas atendam a critérios como manter uma paridade próxima de 1:1 com o dólar, possuir mais de 95% de estabilidade nas transações e seguir padrões rigorosos de emissão e resgate.

Por outro lado, o projeto não oferece isenção semelhante para transações com Bitcoin, o que foi criticado por alguns como uma postura “parcial” na política tributária. Conner Brown, ex-assessor do Instituto de Políticas de Bitcoin, afirmou que o projeto “representa um retrocesso na política fiscal de criptomoedas nos EUA” e que a ausência de isenções menores para Bitcoin pode prejudicar seu potencial como meio de pagamento. Essa controvérsia revela uma tendência mais ampla: legisladores americanos estão adotando uma abordagem diferenciada para diferentes tipos de ativos, favorecendo aqueles que se encaixam em estruturas regulatórias tradicionais, enquanto mantêm restrições mais severas para ativos descentralizados como o Bitcoin.

Quais são as perspectivas legislativas e estratégias do setor?

Atualmente, o projeto PARITY ainda está em fase de discussão e não foi oficialmente submetido ao Congresso. Apesar de comitês de arrecadação da Câmara avaliarem os detalhes, o caminho para sua aprovação no Senado ainda é incerto. Com as eleições intermediárias de 2026, o período de elaboração de legislação tributária é bastante apertado, e há dúvidas sobre se o projeto de lei de impostos envolvendo criptomoedas será incluído na legislação final.

No entanto, a pressão de lobby do setor está crescendo. Fontes do setor indicam que, assim que uma proposta de lei tributária for apresentada, o setor de criptomoedas fará esforços intensivos para garantir a inclusão de cláusulas favoráveis. Para investidores, o momento atual exige atenção às mudanças reais nas regras, mais do que às especulações sobre o ritmo legislativo. Com regras de wash sale possivelmente sendo implementadas e a postergação de impostos de staking ainda incerta, ajustar rotinas de registro fiscal e estratégias de alocação de ativos antes do texto final se torna uma prioridade. Uma estimativa do Conselho Econômico da Casa Branca, divulgada em abril de 2026, sugere que isentar stablecoins de reconhecimento fiscal pode aumentar em cerca de 0,02% o volume de empréstimos bancários, equivalente a aproximadamente 21 bilhões de dólares em novas operações de crédito. Essa avaliação macroeconômica indica que, se aprovado, o projeto terá impacto além do setor de criptomoedas.

Resumo

A revisão do projeto de lei PARITY nos EUA marca um avanço importante na política tributária de criptomoedas, saindo de uma abordagem genérica de “tudo ou nada” para uma gestão mais detalhada e segmentada. A substituição do limite de 200 dólares por uma avaliação de 99% do custo base oferece uma isenção substancial para pagamentos diários com stablecoins; a extensão da regra de wash sale ao setor digital e a distinção entre staking passivo e ativo preenchem lacunas na legislação atual. Contudo, o tratamento diferenciado de stablecoins e Bitcoin também gerou debates acalorados sobre justiça fiscal. Com o cenário legislativo ainda incerto, investidores devem acompanhar de perto as evoluções e preparar-se para ajustes fiscais e estratégicos antecipados.

Perguntas frequentes

Pergunta: Por que o projeto PARITY eliminou o limite de 200 dólares para pequenas transações?

O limite de 200 dólares, presente no rascunho de dezembro de 2025, tinha como foco principal stablecoins reguladas, vinculadas ao projeto GENIUS. A versão de março de 2026 substituiu essa limitação por uma avaliação de que o custo base não seja inferior a 99% do valor de resgate, oferecendo uma estrutura de isenção mais ampla, sem restrição de valor fixo, abrangendo um espectro maior de transações.

Pergunta: Quais condições uma stablecoin deve atender para ser isenta de impostos?

A stablecoin deve estar sob regulamentação do projeto GENIUS e manter seu valor de resgate dentro de uma faixa de 0,99 a 1,01 dólar, ou seja, dentro de 1% do valor de ancoragem. Além disso, o custo base do contribuinte na stablecoin não pode ser inferior a 99% do valor de resgate, para que possa usufruir da isenção de ganhos ou perdas.

Pergunta: Como a regra de wash sale afeta investidores em criptomoedas?

A regra de wash sale impede que investidores, ao venderem ativos com prejuízo, recompreiem o mesmo ou similar dentro de 30 dias, para deduzir a perda fiscal. Nos EUA, essa regra já se aplica a ações, mas ainda não a criptomoedas. Se aprovada, ela impedirá operações de “venda de lavagem” no setor digital, obrigando os investidores a reavaliar estratégias de timing e composição de portfólios.

Pergunta: Como funciona a postergação de impostos em staking?

O contribuinte pode optar por reconhecer os rendimentos de staking no momento do recebimento ou adiar esse reconhecimento por até cinco anos. Essa opção é válida para atividades de staking passivo, em que o usuário apenas valida transações na rede sem realizar negociações ativas. Atividades de negociação ativa não se qualificam para essa postergação.

Pergunta: Bitcoin será beneficiado pelas vantagens fiscais do projeto?

Até o momento, o texto do projeto de lei não inclui o Bitcoin em cláusulas de isenção ou de ganhos de capital menores. Assim, transações diárias com Bitcoin ainda precisarão ser calculadas e declaradas conforme as regras atuais. Organizações como o Instituto de Políticas de Bitcoin criticaram essa abordagem e defendem a inclusão do Bitcoin em futuras versões do projeto.

Pergunta: O projeto já foi aprovado oficialmente?

Ainda não. O PARITY permanece em fase de discussão e não foi oficialmente submetido ao Congresso. A expectativa é que o setor de criptomoedas faça forte lobby para incluir cláusulas favoráveis na legislação tributária final, mas o cronograma e o conteúdo definitivo ainda estão incertos.

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