A Bitmain cercada de controvérsias encontrou o seu maior apoiante nos EUA

Escrito por: Ryan Weeks, Bloomberg

Traduzido por: Luffy, Foresight News

Considerada uma ameaça à segurança nacional pelos Estados Unidos, envolvida em controvérsias sobre segurança de mineradoras e controlo remoto, a Bitmain é a líder absoluta na indústria global de hardware de mineração de Bitcoin. Esta misteriosa empresa chinesa, após enfrentar sanções da Casa Branca e investigações do Departamento de Segurança Interna, surpreendentemente formou uma importante aliança comercial com Eric Trump, filho de Donald Trump.

De um lado, uma gigante chinesa de mineração acusada de prejudicar a rede elétrica e a segurança de bases militares; do outro, uma empresa de Bitcoin ligada à família presidencial americana. Ambos construíram um super-minerador no Texas, iniciando uma parceria de peso. Este artigo revela como essa aliança política e de criptomoedas se formou, e como a Bitmain conseguiu virar o jogo após ser colocada na “lista negra” dos EUA, tornando-se um dos parceiros comerciais mais importantes da família Trump. A seguir, a tradução do texto completo:

Império da mineração: a enigmática e monopolista Bitmain

De centros de dados dedicados no interior do Texas a fábricas de madeira reformadas em Bornéu, há fileiras de máquinas em formato de caixa de sapato, emitindo ruídos ensurdecedores que às vezes provocam reclamações dos vizinhos. Cada uma contém centenas de circuitos integrados especializados (ASIC), produzidos a custos elevados em fábricas avançadas de Taiwan. Esses chips são soldados em três placas de processamento de potência, realizando cálculos intensivos, com comandos enviados por uma placa de controle. Dependendo do modelo, as máquinas usam ventiladores internos ou sistemas de resfriamento líquido para evitar o superaquecimento, consumindo uma quantidade enorme de energia, independentemente de onde estejam instaladas.

Esses dispositivos têm uma única finalidade: resolver o algoritmo subjacente do Bitcoin, SHA‑256. SHA‑256 é uma função unidirecional, ou seja, a única maneira de decifrá-la é tentando várias possibilidades até encontrar a solução. Os mineradores de Bitcoin vivem disso: ao encontrar a solução correta, podem validar transações de outros e receber recompensas em Bitcoin. Assim, seus lucros dependem diretamente de quantas tentativas por segundo esses dispositivos, chamados “Antminer”, podem fazer — atualmente, dezenas de trilhões por segundo. Um Antminer topo de linha custa até US$ 17.400. Grandes mineradoras possuem até 500 mil máquinas, com investimentos iniciais de bilhões de dólares, mas esses custos são pequenos comparados aos potenciais retornos, especialmente quando o preço do criptomoeda está em alta. Alguns comparam isso a ter uma fila de impressoras de bilhetes de loteria, com chances de ganhar muito maiores.

Os Antminers são o produto principal da Bitmain Technologies Ltd. A empresa não só domina a fabricação de hardware de mineração de Bitcoin, como, por grande parte de sua história, foi praticamente o próprio setor, com mais de 80% de participação de mercado. Poucas empresas conseguem esse nível de controle absoluto global: a Alphabet Inc. no setor de buscas, a De Beers na produção de diamantes, ou a Companhia Holandesa das Índias Orientais na monopolização do comércio de especiarias há séculos. Mas, ao contrário desses monopólios históricos, muitos aspectos da Bitmain ainda permanecem um mistério.

2017, uma fazenda de mineração da Bitmain na China

A empresa não é listada em bolsa, e seu site oficial não divulga detalhes sobre sua sede global, CEO ou membros do conselho. O cofundador Jihan Wu é a figura mais próxima de uma liderança visível, mas raramente aparece publicamente e deixou de ser presidente. Ainda assim, não se sabe ao certo quando ele saiu, quem o sucedeu ou se há um sucessor. Nos últimos meses, os porta-vozes da Bitmain se recusaram a esclarecer até mesmo informações básicas sobre sua estrutura e governança, incluindo os principais acionistas. Como a empresa vende várias versões de seus mineradores a diferentes preços, sua receita anual é altamente estimada, variando de US$ 2 bilhões a US$ 3 bilhões, segundo uma fonte anônima próxima à companhia, baseada em estudos internos. Mesmo assim, trata-se de uma estimativa fundamentada, não de um dado oficial.

Dois fatos são claros: primeiro, a sede da Bitmain fica na China; segundo, ela formou uma aliança com um membro da família Trump. Eric Trump, o filho do meio de Donald Trump, é cofundador e diretor estratégico da American Bitcoin Corp., sediada em Miami. A empresa foi listada na Bolsa de Nova York em setembro passado, e sua participação na época valia cerca de US$ 548 milhões (hoje, com a queda do mercado de criptomoedas, o valor caiu bastante). Seu irmão, Donald Trump Jr., também é investidor, mas seu investimento não foi divulgado. A American Bitcoin planeja adquirir milhares de Antminers da Bitmain, tornando-se uma das maiores mineradoras do mundo, e já está colaborando com a chinesa na construção de um grande centro de dados no Texas.

Essa parceria representa uma reviravolta surpreendente para a Bitmain, que, até pouco tempo atrás, enfrentava desafios de vida ou morte: investigações crescentes nos EUA questionando se seus dispositivos representam uma ameaça à segurança nacional. Em maio de 2024, o Casa Branca ordenou a remoção de milhares de Antminers de uma fazenda próxima a uma base de mísseis nucleares da Força Aérea. No ano anterior, um relatório do Comitê de Inteligência do Senado alertou que a presença de mineradoras próximas a bases militares “representa risco inaceitável”. Em novembro, a Bloomberg revelou que a empresa estava sob investigação do Departamento de Segurança Interna dos EUA, que buscava determinar se os Antminers poderiam ser controlados remotamente para prejudicar a rede elétrica ou espionagem. A investigação, chamada “Operação Sol Nascente”, começou na administração Biden e continuou até o início do segundo mandato de Trump, com discussões nos comitês de segurança nacional de ambos os governos.

A Bitmain não respondeu às perguntas específicas sobre esses riscos, mas, em uma declaração de dezembro, afirmou que cumpre todas as leis aplicáveis e que as reportagens sobre investigações “não condizem com a realidade, sendo notícias falsas”. A American Bitcoin afirmou que “segue rigorosos padrões de segurança nacional, estabilidade da rede elétrica e operação segura”, e que “desde que o hardware seja implantado de acordo com padrões industriais modernos, não há ameaça à rede elétrica ou à segurança do país”.

Irene Gao, da Bitmain, fotografada em 2025

O andamento da operação “Operação Sol Nascente” ainda é incerto. O Departamento de Segurança Interna disse à Bloomberg Businessweek que “não pode comentar sobre investigações em andamento”. Contudo, a parceria entre a Bitmain e a American Bitcoin continua firme, e a expansão nos EUA não parou. Recentemente, a empresa começou a se abrir um pouco mais. Para este artigo, a Bitmain enviou a Irene Gao, diretora de vendas global, para uma entrevista. Ela elogiou a política pró-criptomoeda de Trump, dizendo que “para a maioria de nossos clientes, isso é algo muito positivo”. Quando questionada sobre nomes de executivos além do CEO Yang Cunyong, ela evitou responder, dizendo: “Não queremos divulgar informações da empresa dessa forma”.

Sombras de segurança: investigações de segurança nacional nos EUA

Além dos investidores que buscam lucros rápidos, a indústria de criptomoedas desde o início atrai dois tipos de pessoas: geeks tecnológicos e fiéis seguidores. Os primeiros focam nos desafios computacionais e matemáticos de criar e negociar ativos digitais; os segundos, na potencial transformação do sistema financeiro global por essas ferramentas.

Fundadores da Bitmain, dois chineses, representam esses dois grupos. Jihan Wu, engenheiro de chips, já fundou uma startup de caixas de TV; Wu Jihan, ex-analista de investimentos, se apaixonou por criptomoedas e foi quem traduziu o white paper original do Bitcoin para o chinês. A parceria começou em um jantar em Pequim, em 2013. Wu disse que, no dia seguinte, consultou a Wikipedia sobre criptomoedas e decidiu fundar a empresa com Wu Jihan. Fontes que tiveram contato com ambos, mas pediram anonimato por medo de retaliação, dizem que eles têm algumas características em comum: são pouco sociáveis, muito discretos na carreira, raramente aparecem ou dão entrevistas; além disso, são considerados temperamentais sob pressão — Wu Jihan foi visto gritando com funcionários no escritório, com toda a construção ouvindo.

Quando a Bitmain foi fundada em 2013, o mundo de mineração de Bitcoin ainda não era dominado por data centers gigantescos de empresas listadas. Era uma época de entusiastas que perseguiam equipamentos de ponta. Naquele ano, o Bitcoin ultrapassou US$ 1.000 pela primeira vez, ainda em fase inicial, com a maioria dos tokens por minerar. Na época, mineradores mais eficientes podiam aumentar significativamente o poder de processamento da rede, medido em hash rate. Quem adquirisse rapidamente os equipamentos mais avançados tinha vantagem garantida.

2017, funcionários da Bitmain

A Bitmain lançou seu primeiro Antminer, o S1, em novembro de 2013. Em termos atuais, era bastante rudimentar, sem case, com a placa de circuito e fios expostos. Mas, como um dos primeiros mineradores baseados em ASIC, tinha uma potência de processamento impressionante para a época, marcando uma evolução significativa frente à concorrência e impulsionando a transição para hardware dedicado. As gerações seguintes de Antminers trouxeram avanços ainda maiores, redefinindo o mercado a cada nova versão: quem não comprasse o mais recente ficava para trás.

Em 2017, o preço do Bitcoin subiu mais de 250%, impulsionando a demanda por Antminers. No meio do ano, uma rodada de financiamento privado elevou a avaliação da Bitmain para US$ 12 bilhões. O crescimento chamou atenção mundial, e uma rodada de agosto de 2018 foi até apresentada ao então procurador-geral Jeffrey Epstein. Documentos revelaram que Epstein, que tinha sua reputação manchada, queria investir até US$ 3 milhões na holding da Bitmain, mas tinha receios sobre a estrutura do negócio. Não se sabe se o investimento foi concretizado.

Pouco depois, a empresa entrou com pedido de IPO em Hong Kong, divulgando receita de US$ 2,5 bilhões, um aumento expressivo em relação aos US$ 137 milhões de dois anos antes. Os fundadores, Wu Jihan e Jihan Wu, tinham cerca de 36% e 20%, respectivamente, e suas fortunas atingiam dezenas de bilhões de dólares. Outros investidores incluíam Sequoia China, IDG Capital e Coatue. Mas apostar na alta do preço do Bitcoin também traz riscos: uma nova queda do mercado levou ao fracasso do IPO. O setor entrou em uma longa fase de baixa, conhecida como “inverno cripto”. Além disso, a relação entre Wu Jihan e Wu Jihan se deteriorou, segundo fontes anônimas, por divergências estratégicas: Wu Jihan queria diversificar para inteligência artificial, usando chips para reconhecimento facial, enquanto Wu Jihan, entusiasta do Bitcoin, resistia a desviar do foco original.

No final de 2019, Wu Jihan tentou assumir controle total da empresa, mas foi destituído de seus cargos de CEO e presidente. Wu Jihan entrou com uma ação nas Ilhas Cayman, onde a empresa está registrada. Houve uma disputa de poder que culminou em um episódio dramático: uma briga física em um prédio do governo em Pequim, testemunhada por Hazel Hu, ex-jornalista, em 2020. Ela viu Wu Jihan, enquanto aguardava a emissão do certificado de operação, ser confrontado por apoiadores dele e de Wu Jihan, que se envolveram numa luta pelo documento. A polícia foi chamada e a confusão foi contida.

No ano seguinte, Wu Jihan admitiu a derrota e deixou os cargos na Bitmain. A disputa foi resolvida, e ele agora é presidente do fabricante de mineradores Bit Deer Group e de uma plataforma de investimentos em criptomoedas. Apesar do tumulto interno, a Bitmain continuou a expandir, especialmente após a recuperação do preço do Bitcoin em 2020. Com a complexidade crescente na matemática por trás da lucratividade, os Antminers se tornaram essenciais. “São os dispositivos mais eficientes atualmente”, afirma Vishnu Mackenchery, diretor de desenvolvimento de negócios da Compass Mining, nos EUA.

Fábrica em Shenzhen, em montagem de Antminers

Na época, as vendas da Bitmain eram concentradas no mercado doméstico. Dados do Cambridge Centre for Alternative Finance indicam que, em 2019, a China respondia por cerca de 75% do poder de mineração global de Bitcoin. Mas, em 2021, o governo chinês intensificou ações contra o setor, alegando alto consumo de energia e emissão de carbono. Como resultado, muitos mineradores migraram para regiões com energia mais barata e regulamentação mais favorável, especialmente nos EUA. Como fabricante de hardware, a Bitmain não foi fechada, continuou operando em Pequim e abriu centros de distribuição no Sudeste Asiático. Mas, desde então, seu futuro depende do que acontecer nos EUA.

Após a mudança na política chinesa, a Bitmain intensificou as vendas para mineradores americanos e expandiu uma atividade secundária: gerenciar operações de mineração para clientes nos EUA. Para criar uma imagem pública, transferiu Irene Gao para os EUA. Ela entrou na empresa logo após se formar na universidade, em 2016, e, na época, viajava com mala, visitando cidades para promover os produtos. Como muitas informações da Bitmain, os números de vendas e participação de mercado dessa fase ainda não são públicos, mas especialistas afirmam que ela já se consolidou como líder.

Porém, a empresa logo passou a ser afetada por tensões geopolíticas. Durante o primeiro mandato de Trump, a Casa Branca impôs tarifas de 25% sobre diversos produtos eletrônicos chineses. A Bitmain começou a transferir produtos por Tailândia, Malásia e Indonésia, prática comum entre fabricantes chineses, mas considerada ilegal pelos EUA. O governo Biden manteve essas tarifas, e, em 2022, a Customs and Border Protection dos EUA apreendeu uma remessa de Antminers enviada para a Sphere 3D, de Connecticut. Ao abrir uma unidade, os agentes encontraram uma etiqueta “Made in China”. A empresa foi retida por três meses. Com medo de atrasos adicionais, alguns mineradores passaram a encomendar de concorrentes com fábricas nos EUA, enquanto a Bitmain ainda não tinha essa estrutura.

A maior preocupação de segurança relacionada à Bitmain vai além de tarifas: ela envolve a possibilidade de seus mineradores serem adulterados para fins além da mineração. Desde 2017, há suspeitas de que os dispositivos possam ter códigos que permitam controle remoto. A empresa confirmou a existência de tais códigos, alegando que eles servem para desativar os mineradores roubados, como uma função de bloqueio, semelhante ao bloqueio de iPhones perdidos pela Apple. Depois, a Bitmain afirmou que removeu essa funcionalidade, mas, dois anos depois, um blogueiro descobriu códigos semelhantes, e a empresa lançou patches de segurança.

Segundo uma fonte anônima com acesso a documentos internos, durante a administração Biden, autoridades americanas encomendaram estudos para avaliar se os mineradores da Bitmain e outros fabricados na China representam riscos à segurança nacional. A investigação foca em duas possibilidades: primeiro, se os dispositivos podem ser usados para espionagem; segundo, o impacto de um controle remoto que possa desligar os mineradores, afetando a rede elétrica. Especialistas em hardware de criptomoedas consideram improvável que esses dispositivos possam ser usados para espionagem, dada sua engenharia altamente especializada, mas o risco de desligamentos remotos preocupa as autoridades, pois podem causar desequilíbrios na rede elétrica, especialmente se ocorrerem em bases militares ou infraestruturas críticas próximas a mineradoras.

Um grande consumo de energia, como uma siderúrgica, costuma desligar-se de forma planejada, com o consumo caindo lentamente ao longo de dias. Mas, no caso de uma mineradora, o desligamento pode acontecer em segundos. Autoridades temem que um evento assim cause uma ruptura na estabilidade da rede elétrica, com consequências graves. O cenário mais assustador seria a China emitindo uma ordem remota para desligar milhares de mineradores perto de bases militares ou instalações estratégicas, causando uma crise de energia. Michael Bedford Taylor, professor de engenharia elétrica na Universidade de Washington, explica que qualquer invasão que controle toda uma fazenda de mineração pode causar danos severos à rede, seja por inteligência artificial, criptomoedas ou centros de dados na nuvem, mas ressalta que a própria Bitmain provavelmente não teria motivação para isso.

Na primavera de 2024, o governo Biden revelou preocupações de segurança em uma fazenda de mineração em Wyoming, perto de Cheyenne, numa área de 12 acres, onde uma empresa ligada à China instalou até 15.000 mineradores, a maior parte da Bitmain. O objetivo era que ela se tornasse uma das maiores do país, aproveitando o baixo custo de terra e energia do estado. A fazenda fica a cerca de uma milha da base aérea Warren, uma das três bases de mísseis nucleares terrestres da Força Aérea dos EUA.

Em 13 de maio de 2024, Biden assinou uma ordem executiva obrigando a mineradora MineOne Partners LLC a encerrar suas operações, alegando “risco à segurança nacional” e citando possíveis dispositivos estrangeiros que poderiam facilitar espionagem. Os mineradores foram rapidamente carregados em caminhões e retirados do local.

Aliança política: unindo-se à família Trump para virar o jogo

Foi um revés público e significativo: o governo dos EUA vinculou claramente os dispositivos da Bitmain a possíveis usos maliciosos. Mas, poucos meses depois, a empresa começou a avançar com um projeto que poderia mudar completamente sua situação.

2017, fazenda de mineração da Bitmain na China

Segundo Michael Ho, parceiro de negócios de criptomoedas de Eric Trump e empresário chinês-canadense, a série de reuniões que levou à criação de uma empresa de mineração de Bitcoin por parte do filho do presidente começou no final de 2024. Assim como Wu Jihan, cofundador da Bitmain, Ho é um entusiasta dedicado, que gosta de contar que, aos 16 anos, já tinha minerado seu primeiro Bitcoin. Conhecendo Eric, ele e seu sócio Asher Genoot operavam a Hut 8 Corp., uma mineradora com sede em Miami, cliente importante dos Antminers da Bitmain.

Ho lembra que se conheceram por meio de amigos em comum na Flórida. Após alguns encontros em Miami e arredores, a relação se aprofundou, incluindo uma reunião no Trump National Golf Club em Jupiter. Eric Trump, que passou grande parte da vida na gestão de negócios imobiliários da família, começou a se envolver mais com criptomoedas. Depois de inicialmente chamar o Bitcoin de golpe, seu pai passou a apoiar o setor na campanha presidencial, prometendo transformar os EUA em uma “superpotência do Bitcoin”. Em setembro de 2024, a família Trump criou a empresa World Liberty Financial, com uma visão ambiciosa de oferecer ferramentas e oportunidades que, segundo eles, estavam há muito restritas a poucos.

Inicialmente, a World Liberty Financial parecia fracassar, pois seus tokens não davam direito a participação nos lucros, nem podiam ser revendidos, contrariando a lógica de investimentos tradicionais. Mas, após a reeleição de Trump, tudo mudou: os preços de ativos digitais dispararam, e empresários interessados em se aproximar da família presidencial começaram a investir. Em fevereiro deste ano, o Wall Street Journal revelou que o sheikh Tahnoun bin Zayed Al Nahyan, membro da família governante de Abu Dhabi, concordou em investir US$ 500 milhões na World Liberty.

Em setembro do ano passado, Eric Trump e Michael Ho, da American Bitcoin, concederam entrevista à Bloomberg em Nova York

Ho afirma que convencer Eric a entrar na mineração foi fácil. “Depois de conversas presenciais e de nos conhecermos melhor, tudo aconteceu rapidamente”, disse à Bloomberg. Em março de 2025, os dois anunciaram um plano complexo, que envolvia a aquisição de uma participação majoritária na American Data Centers, usando mineradores como pagamento, sem dinheiro ou ações. Após adquirir todos os Antminers da Bitmain, a empresa passou a se chamar American Bitcoin. Segundo apresentação a investidores, o objetivo era “ser a maior e mais eficiente mineradora de Bitcoin do mundo, com uma forte reserva estratégica”.

Poucos meses depois, a American Bitcoin decidiu abrir capital, não por meio de uma oferta pública tradicional, mas por fusão com a Gryphon Digital Mining Inc., uma estratégia comum no setor de criptomoedas. Ho é CEO, e Genoot, presidente executivo. Eric Trump é responsável pela estratégia de negócios, embora sua participação seja limitada devido a outros interesses comerciais. A empresa afirma que Eric é “um membro-chave da equipe de liderança”.

Tudo isso criou uma situação constrangedora: Donald Trump, candidato à presidência, prometeu garantir que o Bitcoin fosse “minado, cunhado e fabricado nos EUA”, mas a American Bitcoin depende de Antminers chineses. E, um ano antes, o governo Biden já tinha classificado esses dispositivos como uma potencial ameaça à segurança nacional. Agora, eles estavam ajudando os dois filhos de Trump a lucrar. Talvez percebendo essa contradição e o clima de “America First”, a Bitmain anunciou rapidamente uma mudança de planos, dizendo que abriria um novo centro de operações no Texas ou na Flórida, com 250 empregos locais.

Placa de circuito da Bitmain

Enquanto esses planos avançavam, Ho minimizou as preocupações de segurança com os produtos da Bitmain. “Está claro que esses ASICs foram programados para uma única finalidade: calcular SHA‑256”, afirmou em setembro, na Bloomberg TV. Ele descreveu os mineradores como os mais avançados tecnologicamente: “A Bitmain ainda é a mais competitiva e eficiente”.

Mesmo com equipamentos de ponta, minerar Bitcoin hoje é mais difícil do que nunca. Nos últimos seis meses, o preço caiu mais de 40%, para cerca de US$ 74.000 por Bitcoin, com cerca de 95% do fornecimento já minerado. As ações da American Bitcoin caíram quase 90% desde o pico de setembro do ano passado, valendo cerca de US$ 960 milhões. Em fevereiro, a empresa reportou prejuízo de US$ 59 milhões no quarto trimestre. Ainda assim, a relação de Eric com a companhia lhe traz lucros consideráveis. Documentos mostram que ele não investiu muito na fundação, mas, com o valor atual das ações, sua participação vale cerca de US$ 75 milhões. Se o preço do Bitcoin subir novamente, impulsionado por mudanças políticas ou outros fatores, o valor de suas ações e de seu irmão, Donald Jr., pode aumentar bastante.

A Bitmain trabalha com clientes para resolver alegações de vulnerabilidades de segurança. Meses após a ordem de Biden para remover mineradores na Wyoming, a empresa americana CleanSpark Inc. assumiu o controle do local, reinstalando equipamentos comprados da subsidiária da Bitmain nos EUA, que devem ser de origem não chinesa ou de países sancionados. A empresa afirmou que prioriza a segurança nacional, operando “de forma totalmente legal”, e que seu acordo de operação em Wyoming só será finalizado após aprovação do Comitê de Investimento Estrangeiro dos EUA.

Ao mesmo tempo, a American Bitcoin amplia sua parceria com a Bitmain. Em setembro, enviou uma solicitação à SEC para adquirir mais de 16 mil Antminers, usando uma estrutura de pagamento em Bitcoin, sem dinheiro, com um período de exercício de duas anos, o que especialistas consideram bastante generoso. Outra iniciativa é a construção de um enorme centro de mineração na região de Panhandle, Texas, com o nome Vega, que começou a operar em junho, equipado com os mais recentes Antminers líquidos.

A Bitmain vê a American Bitcoin mais como parceira do que como cliente. No evento Bitcoin Asia, em Hong Kong, Gao e Genoot apresentaram o projeto Vega, com custo estimado de US$ 500 milhões. Gao afirmou que os Antminers S23 Hydro, a mais recente linha, já receberam pedidos de mais de US$ 1 bilhão, e que esses dispositivos, de cor cinza, custam US$ 17.400 cada, e serão produzidos nos EUA.

No dia seguinte, Gao deu entrevista ao Bloomberg Businessweek na suíte de um hotel em Hong Kong. Ela destacou que as vendas de Antminers e o projeto Vega são apenas o começo da parceria com a American Bitcoin. “Podemos colaborar de forma muito flexível, personalizando os produtos conforme a necessidade”, afirmou. “Vamos implantar os mineradores na infraestrutura deles, podendo vendê-los tanto para nossos clientes quanto para suas empresas relacionadas.” Ela evitou responder perguntas mais específicas sobre a relação entre as empresas.

Gao também falou com entusiasmo sobre o futuro do Bitcoin e da própria Bitmain. Segundo ela, a confiança vem do crescimento de eventos como esse. “Você verá muitas pessoas influentes”, disse, incluindo representantes tradicionais do setor financeiro. Entre eles, o convidado especial do dia seguinte: Eric Trump, que fará uma previsão empolgante: o preço do Bitcoin ultrapassará US$ 1 milhão, cerca de 14 vezes o valor atual. “É um sinal positivo”, comentou Gao, ao falar sobre a quantidade de participantes, “uma cena de prosperidade”.

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