Então, Bitdeer zerou o estoque de Bitcoin. Soa estranho vindo de uma mineradora, mas tem lógica por trás. No começo de fevereiro, produziram 189,8 BTC, venderam tudo, e o saldo ficou em zero. Isso gerou bastante buzz nas comunidades de analistas — tem gente discutindo nos grupos de telegram sobre o que significa ganhar dinheiro em cima dessa transição.



Mas o ponto que poucos estão vendo é mais profundo: Wu Jihan não está abandonando a mineração, está pivotando a aposta. Por dez anos, o jogo era simples — você comprava eletricidade e máquinas hoje para vender Bitcoin amanhã. Agora mudou. A moeda que ele quer não é Bitcoin, é capacidade de processamento sob a onda da IA. E para isso, precisa de terra, energia e data centers.

Os números falam: até final de 2025, Bitdeer tinha 1 bilhão em empréstimos contábeis. Em fevereiro de 2026, fechou mais 325 milhões em títulos conversíveis. Total: 1,3 bilhão em dívida. Tudo isso para bloquear ativos globais. Rockdale no Texas (563 MW), Clarington em Ontário (570 MW), Tydal na Noruega (175 MW) — é como juntar a demanda energética de 10 a 30 data centers gigantes do Google em uma empresa só.

O negócio de IA ainda gera apenas 10 milhões por ano. Insignificante. Mas as GPUs estão sendo instaladas rapidamente — passaram de 584 para 1.792 em três meses. A utilização caiu para 41% porque as máquinas ainda estão em fase de teste. É a típica situação de crescimento: denominador subindo rápido, receita ainda não acompanhando.

Os analistas estimam que quando tudo estiver operacional, a receita de IA pode chegar a 850 milhões a 2 bilhões por ano. Mas isso depende de três coisas: construção no prazo, contratos de longo prazo com hyperscalers gigantes, e GPUs rodando em plena capacidade. Nenhuma dessas três condições foi cumprida ainda.

E tem um detalhe que poucos falam: a Bitdeer desenvolveu seus próprios chips mineradores, a série SEAL. O SEAL03 tem eficiência de 9,7 joules por terahash, e estão mirando no SEAL04 com 5 joules por terahash. Margem bruta dos chips supera 40% — bem acima da mineração pura. É tipo o que Wu Jihan fez na Bitmain: de comprar ferramentas de terceiros a fabricar as próprias.

Agora vem a parte complicada. A estrutura de dívida foi desenhada com datas de vencimento em 2029, 2031 e 2032. É uma estratégia consciente de criar um buffer. Mas o mercado não está pagando por isso — o preço-alvo foi reduzido de 26,50 para 14 dólares, e a ação está em torno de 8. A mensagem é clara: a história de transformação precisa gerar receita de verdade.

O cenário ideal seria: até final de 2026, Tydal entra em operação com 164 MW hidrelétricos gerando receita na Europa. Em 2027, Clarington vence o processo judicial (sim, tem uma siderúrgica processando Bitdeer por interferência em infraestrutura compartilhada) e o projeto de 570 MW é oficialmente iniciado. Entre 2028 e 2029, ambos os ativos operam em plena capacidade, receita sobe para a faixa de 1 bilhão, e os analistas reclassificam a empresa de mineradora com desconto para empresa de infraestrutura de IA com prêmio.

Mas tem um cenário pior também: Clarington arrasta por dois anos, Tydal sofre atrasos, utilização de GPU continua em 41%, os títulos vencem em 2029 sem caixa suficiente, forçam nova captação que dilui ações ainda mais. Duas estradas, ambas reais.

O que Wu Jihan realmente comprou com esses bilhões foi uma posição: não importa quem vença na IA, alguém vai precisar pagar a conta de luz. Não é uma aposta em qual empresa vai dominar, é uma aposta em controlar a entrada da pista. Amazon não apostou em qual startup de internet venceria, apenas alugou servidores. AT&T não se importa com o que você fala ao telefone, apenas que você ligou. A evolução sempre segue o mesmo caminho: de vender produtos para vender serviços, depois para cobrar aluguel.

A questão agora é se Wu Jihan consegue manter o timing. Se a dívida consegue ser rolada enquanto os data centers começam a gerar receita real. A janela de tempo é estreita, e qualquer coisa que atrase Clarington ou Tydal muda toda a linha do tempo.
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