Estreito de Ormuz: Atrasos na Reabertura e Normalização dos Preços do Petróleo

Mercados
Atualizado: 2026/06/22 11:17

Em junho de 2026, após mais de três meses de bloqueio efetivo, o Estreito de Ormuz entrou finalmente numa janela de reabertura. A 15 de junho, os Estados Unidos e o Irão assinaram um memorando de entendimento e o Presidente Trump anunciou, na Cimeira do G7, que o Estreito estaria "totalmente aberto" a partir de 19 de junho. Após este anúncio, os preços internacionais do petróleo caíram abruptamente — o Brent desceu do pico de guerra de 126,41 $ por barril em 30 de abril para menos de 78 $ a 18 de junho.

Contudo, a transição de "reabertura anunciada" para "operação plenamente normal" enfrenta quatro grandes obstáculos: desminagem, restabelecimento da capacidade, reconstrução da frota de navios e recuperação da confiança do mercado. Este artigo analisa o verdadeiro roteiro para a reabertura do Estreito de Ormuz sob três perspetivas: o calendário de desminagem, o ritmo da recuperação da oferta e o percurso de normalização dos preços do petróleo.

Desminagem: O "Primeiro Portão de Segurança" de 40–50 Dias

O principal obstáculo ao retomar da navegação comercial normal através do Estreito de Ormuz é o elevado número de minas navais colocadas durante o conflito.

Segundo a Reuters, citando fontes ocidentais de segurança marítima, a remoção das minas para garantir a passagem segura poderá demorar entre 40 e 50 dias. Jakob Larsen, Diretor de Segurança Marítima da BIMCO, confirmou que todo o processo de desminagem exigirá 40 a 50 dias e apelou à criação prévia de "corredores livres de minas". Anteriormente, uma reunião confidencial do Pentágono estimava que a remoção total das minas colocadas pelo Irão poderia demorar até seis meses — embora porta-vozes do Pentágono tenham posteriormente minimizado a viabilidade dessa estimativa.

O número e a distribuição das minas continuam a ser o maior fator de incerteza. Phil Belcher, Diretor Marítimo da Intertanko, referiu dados recentes que indicam a presença de pelo menos 80 minas nas proximidades das principais rotas de navegação do Estreito. A Guarda Revolucionária Iraniana já tinha alertado para uma "zona de perigo" com 1 400 quilómetros quadrados — uma área equivalente a 14 vezes o tamanho de Paris. Embora o memorando de entendimento estipule que "o Irão iniciará a desminagem no prazo de 30 dias", especialistas marítimos alertam que, mesmo com dragas e tecnologia sonar a localizar rapidamente a maioria das minas, algumas poderão ter-se deslocado ou permanecer ocultas, exigindo uma verificação rigorosa da segurança da navegação após a limpeza.

Em suma, a desminagem não é uma operação que possa ser "concluída de um dia para o outro". O período de 40 a 50 dias significa que, até ao final de julho ou início de agosto, o Estreito não poderá ser considerado uma "via marítima comercial segura".

Restabelecimento do Transporte Marítimo: Três Fases da "Passagem de Navios" à "Normalização da Cadeia de Abastecimento"

Mesmo após a desminagem, o regresso à normalidade do transporte marítimo será um processo faseado.

De acordo com a consultora de análise marítima Xeneta, a normalização completa do transporte de contentores poderá não ocorrer antes de meados de setembro de 2026. Peter Sand, Analista Principal da Xeneta, salientou que, antes do conflito, operavam ou transitavam pelo Golfo Árabe 99 rotas de contentores, com uma capacidade combinada de 3,2 milhões de TEU — cerca de 10 % da frota mundial de contentores. Atualmente, apenas 11 rotas permanecem ativas, com centenas de navios forçados a desviar-se ou a operar noutras rotas globais.

A Xeneta prevê uma recuperação em três fases: primeiro, libertação dos navios retidos no Golfo Árabe; segundo, restabelecimento dos serviços regionais de alimentação; e, por fim, retoma gradual das principais rotas de longo curso, como Ásia-Europa e Ásia-América do Norte. Mesmo no cenário mais otimista, os analistas de transporte marítimo consideram que serão necessários pelo menos três meses para restabelecer plenamente as redes de abastecimento marítimo.

Os dados de tráfego confirmam o ritmo lento da retoma. Segundo dados do setor citados pelo The New York Times, cerca de 25 navios atravessam diariamente o Estreito de Ormuz — acima dos mínimos registados durante o conflito, mas ainda muito aquém da média pré-crise de 125 a 140 navios por dia. Cerca de 600 navios permanecem fundeados no Golfo Pérsico. Richard Meade, Diretor do Lloyd’s List, foi claro: "Estamos em território desconhecido. Não creio que o transporte marítimo através do Estreito regresse à normalidade este ano."

Gargalo de Capacidade: O Défice de 14,4 Milhões de Barris por Dia Não se Resolve de Imediato

Existe uma diferença significativa entre "autorização para exportar" e "restabelecimento da produção". Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), o encerramento do Estreito reduziu a produção petrolífera do Golfo em 14,4 milhões de barris por dia face aos níveis anteriores ao conflito. Os produtores de petróleo do Médio Oriente reduziram a produção em mais de 11 milhões de barris por dia.

A recuperação da capacidade enfrenta três constrangimentos principais. Primeiro, alguns poços de petróleo foram forçados a encerrar durante meses e algumas infraestruturas sofreram danos. A União dos Exportadores de Petróleo e Gás do Irão indica que a produção de gás natural iraniana caiu cerca de 10 %, sendo que a reparação total das instalações danificadas poderá demorar até dois anos. A consultora norueguesa Rystad Energy estima que a reconstrução das infraestruturas petrolíferas e de gás da região custará cerca de 42 mil milhões de dólares. Em segundo lugar, há escassez de navios-tanque e de mão de obra — muitos petroleiros foram desviados ou ficaram inativos durante o conflito, e as tripulações mostram-se relutantes em regressar ao Golfo devido a preocupações de segurança. Em terceiro lugar, mesmo após o reinício dos poços, os navios-tanque vazios têm de entrar primeiro no Estreito para carregar os inventários existentes antes de dar lugar à nova produção, um processo que, só por si, leva várias semanas.

O ICICI Bank Research projeta que os países do Conselho de Cooperação do Golfo restabeleçam a produção até 82 % da capacidade pré-conflito em setembro de 2026, atingindo 90 % em dezembro. Ou seja, a oferta permanecerá "muito limitada" até ao final do terceiro trimestre.

O Dilema Específico do Mercado de GNL: 20 % da Oferta Mundial Congelada e Danos de Longo Prazo na Capacidade

O percurso de recuperação do mercado de gás natural é ainda mais complexo do que o do petróleo. A AIE assinala que o encerramento efetivo do Estreito retirou quase 20 % da oferta mundial de gás natural liquefeito (GNL) do mercado. A análise da Wood Mackenzie sugere ainda que, mesmo num cenário de "reconciliação de verão", os fluxos de GNL não serão retomados antes de setembro de 2026, com uma recuperação total adiada para 2028.

Mais grave ainda, os ataques a infraestruturas de liquefação de GNL no Médio Oriente durante o conflito causaram danos duradouros na capacidade. A AIE alerta que estas perdas estão a alterar o equilíbrio entre oferta e procura a médio prazo. As reparações nas linhas danificadas do Qatar, com uma capacidade anual de cerca de 12,8 milhões de toneladas, vão demorar entre três e cinco anos. Mesmo após a reabertura do Estreito, a retoma da oferta de GNL será muito mais lenta do que a do petróleo.

Percurso de Recuperação dos Preços do Petróleo: Divergência e Consenso Entre as Instituições

As principais instituições emitiram previsões bastante divergentes, mas logicamente fundamentadas, para a trajetória do Brent.

Citibank reviu em baixa a sua previsão para o preço do petróleo a 16 de junho, reduzindo a média do Brent para o terceiro trimestre de 2026 de 95 $ para 75 $ por barril, para o quarto trimestre de 80 $ para 70 $ e a projeção para 2027 ainda mais, para 65 $. A lógica central: se o acordo EUA-Irão restabelecer os fluxos comerciais pelo Estreito até ao final de julho, os preços do petróleo passarão de uma "cotação com prémio de risco geopolítico" para uma "cotação baseada nos fundamentos de oferta e procura".

Goldman Sachs baixou a sua previsão para o Brent no quarto trimestre de 2026 de 90 $ para 80 $, e a média para 2027 de 80 $ para 75 $. Contudo, o Goldman também salienta que os riscos permanecem tendencialmente ascendentes — se o Estreito continuar perturbado até 2027, o Brent poderá ultrapassar os 130 $ por barril no final de 2026.

ICICI Bank Research prevê que o Brent se mantenha na faixa dos 75–85 $ no segundo semestre de 2026, citando mercados físicos restritos e procura de reabastecimento, tornando-se depois baixista em 2027 à medida que a oferta aumenta, projetando 65–75 $ por barril.

Barclays mantém a sua previsão de uma média de 100 $ para o Brent em 2026, argumentando que a recuperação da oferta será mais lenta do que o mercado atualmente antecipa.

Em suma, embora as instituições discordem sobretudo quanto à "velocidade da recuperação", existe um consenso de base: o Brent deverá negociar entre 75 e 85 $ no segundo semestre de 2026 e, à medida que a oferta regressar gradualmente em 2027, o centro dos preços deverá descer para 65–75 $.

Variáveis de Risco: Implementação do Acordo e Limiares de Inventários

Todas estas previsões assentam numa premissa fundamental — o acordo de cessar-fogo será cumprido. Contudo, o memorando de entendimento é apenas um quadro provisório de 60 dias, com questões centrais como o programa nuclear iraniano adiadas para futuras negociações. O Presidente Trump também afirmou que os EUA voltarão a atacar o Irão caso considerem que não está a cumprir. Adicionalmente, as taxas de passagem pelo Estreito continuam a ser um ponto de discórdia entre EUA e Irão — o memorando apenas garante passagem livre durante 60 dias. Qualquer falha no acordo ou nova escalada poderá fazer os preços do petróleo voltar a ultrapassar os 90 $ por barril.

Outro risco que o mercado poderá estar a subestimar é o facto de os inventários globais de crude terem caído para mínimos críticos. As reservas de crude dos EUA diminuíram durante nove semanas consecutivas, num total de 52 milhões de barris. Cushing, o principal centro de armazenamento, dispõe de cerca de 21 milhões de barris — se descer abaixo dos 20 milhões, poderá comprometer as infraestruturas de armazenamento e transporte. Neil Chapman, Vice-Presidente Sénior da ExxonMobil, assinala que os inventários de crude atuais se encontram em mínimos historicamente raros e, caso atinjam limiares críticos, os preços poderão disparar rapidamente. Inventários reduzidos significam que o mercado dispõe de uma margem de manobra muito limitada perante qualquer perturbação da oferta — mesmo uma breve escalada poderá provocar oscilações acentuadas dos preços.

Conclusão

A reabertura do Estreito de Ormuz não deve ser vista como um simples sinal de que a crise energética terminou. Dos 40–50 dias necessários para a desminagem, passando por pelo menos três meses para restabelecer a rede de transporte marítimo, até não se atingir 90 % da capacidade antes do final de 2026 — este percurso de recuperação mede-se em meses, não em dias. Para os intervenientes no mercado, o dilema central não é um binário "Estreito aberto ou fechado", mas sim uma disputa contínua sobre "a velocidade da recuperação" e "a sustentabilidade do acordo". Com inventários em mínimos históricos, qualquer perturbação do lado da oferta poderá ser significativamente amplificada. Nos próximos meses, é provável que os preços do petróleo oscilem amplamente entre 75 e 85 $ por barril, sendo que uma verdadeira "normalização dos preços" — o regresso aos níveis pré-conflito abaixo dos 70 $ por barril — poderá ter de esperar até depois de 2027, quando a oferta estiver totalmente restabelecida.

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