
O relatório «O papel internacional do euro» divulgado pelo Banco Central Europeu (BCE) a 2 de junho mostra que, até ao final de 2025, o ouro representava 27% do valor de mercado das reservas oficiais globais, ultrapassando os Títulos da dívida pública dos EUA (22%) e o euro (15%), tornando-se o principal ativo das reservas oficiais a nível mundial. O BCE sublinha de forma explícita que a mudança nesta classificação se deve sobretudo a efeitos de avaliação, e não a vendas diretas de Títulos da dívida pública por parte dos bancos centrais nacionais com a consequente troca por ouro.
Quotas de reservas e efeitos de avaliação: os principais números do relatório do BCE
Com base no relatório do BCE «O papel internacional do euro» (dados até ao final de 2025):
Ouro: 27% da quota das reservas oficiais globais
Títulos da dívida pública dos EUA: 22%
Euro: 15%
O BCE explica de forma explícita no relatório: «A quota do ouro ultrapassou agora a do euro (15%) e dos Títulos da dívida pública dos EUA (22%).» O relatório enfatiza igualmente que a alteração na classificação reflete principalmente efeitos de avaliação, e não uma substituição direta das detenções de dívida. O BCE aponta também limites estruturais ao ouro: volatilidade acentuada do preço, ausência de rendimento, custos associados à detenção física e à necessidade de armazenamento, além de uma oferta que não consegue expandir de forma estável para satisfazer exigências de liquidez.
Principais compradores oficiais de ouro: volumes de compras confirmados pelas autoridades
Com base nos dados oficiais citados no relatório do BCE, o aumento acumulado desde a invasão russa total da Ucrânia:
China: 350+ toneladas
Polónia: 320 toneladas (maior comprador oficial de ouro global em 2025)
Turquia: 220 toneladas
Índia: 130 toneladas
Tether (emissor de stablecoins): 100+ toneladas
Em 2025, o total de compras de ouro pelos bancos centrais oficiais a nível mundial situou-se em cerca de 850 toneladas, abaixo do patamar de mais de 1.000 toneladas por ano observado entre 2022 e 2024, mas ainda assim em níveis elevados quando medidos pelos padrões recentes. No mesmo período, a procura de investimento privado atingiu cerca de 2.200 toneladas, quase o dobro face a 2024; os ETF de ouro atraíram fluxos de 89 mil milhões de dólares, num nível recorde.
O BCE destaca especialmente as compras de ouro da Tether, afirmando: «Isto evidencia os impactos macroeconómicos mais amplos que o crescimento das stablecoins pode gerar.»
Avaliação adicional do BCE: o sistema de reservas em dólares continua a dominar, e a geopolítica é o fator impulsionador
A avaliação global do relatório do BCE é a seguinte: o sistema de reservas de divisas globais continua centrado no dólar, mas «já não é tão rígido». O relatório liga de forma explícita a procura de ouro por parte dos bancos centrais aos riscos geopolíticos: «As compras de ouro também podem refletir esforços de alguns bancos centrais para reforçarem a robustez das suas folhas de balanço na resposta a riscos geopolíticos crescentes.»
O BCE alerta simultaneamente para riscos: se o preço do ouro cair, a posição de liderança impulsionada pelo preço do ouro poderá inverter-se.
Perguntas frequentes
Por que razão o BCE sublinha que o ouro ultrapassou os Títulos da dívida pública dos EUA sobretudo por efeito de avaliação?
O BCE explica de forma clara que, nesta ocasião, a quota do ouro ultrapassou a dos Títulos da dívida pública dos EUA principalmente porque o preço do ouro subiu cerca de 60% em 2025 (somado ao aumento de 30% em 2024), elevando naturalmente a percentagem do ouro no total das reservas oficiais globais, e não porque os bancos centrais tenham vendido em larga escala Títulos da dívida pública dos EUA para comprar ouro. Se calcularmos com base nos preços no final de 2023, a quota do ouro seria apenas de 16%, inferior aos 26%+ dos Títulos da dívida pública dos EUA.
Qual é o pano de fundo para a Polónia se ter tornado o maior comprador global de ouro em 2025?
De acordo com o relatório do BCE, desde o início da invasão russa total da Ucrânia, a Polónia acumulou compras de ouro de 320 toneladas e foi confirmada como o maior comprador oficial de ouro em 2025. O BCE liga a procura global de ouro oficial à gestão de riscos geopolíticos e considera que o reforço de posições em ouro pelos bancos centrais reflete uma necessidade de robustez das folhas de balanço, em especial para fazer face a impactos geopolíticos e à dependência de um único ativo de reservas.
A compra de mais de 100 toneladas de ouro pela Tether que implicações tem para o mercado de stablecoins?
O relatório do BCE aponta de forma particular as compras de ouro da Tether, referindo que «isto evidencia os impactos macroeconómicos mais amplos que o crescimento das stablecoins pode gerar». O BCE não apresenta uma avaliação adicional de políticas nem uma posição regulamentar sobre as compras de ouro da Tether, mas o facto de estas terem sido incluídas nas estatísticas de reservas oficiais marca que o comportamento de alocação de ativos de emissores privados de stablecoins entrou no enquadramento oficial de análise a nível de bancos centrais.